quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

Unificações da Itália e da Alemanha

 As unificações da Itália e da Alemanha


Unificação italiana e alemã


A Itália para os italianos

Na primeira metade do século XIX, a Península Itálica estava dividida em vários reinos. O sul, dominado pelo Reino das Duas Sicílias, era basicamente agrícola. Já a região norte, que havia se industrializado, estava sob a influência direta do Império Austríaco.


Com as insurreições liberais de 1848, houve uma tentativa de unificação da península. Porém, ela fracassou. Primeiro porque os líderes do movimento não partilhavam do mesmo projeto unificador, dividindo-se entre monarquistas liberais e republicanos. Enquanto os monarquistas temiam a participação popular no movimento, os republicanos tentavam mobilizar os habitantes da península. Segundo porque a maioria não estava unida em torno de um sentimento de identidade nacional.


 De norte a sul da península

Piemonte-Sardenha, o reino mais industrializado da península e liderado pelos monarquistas liberais, deu início a um novo processo de unificação italiana. Em 1859, seu primeiro-ministro, o conde de Cavour, apoiado por Napoleão III, da França, derrotou as forças austríacas e incorporou diversos territórios ao norte da península.


No sul, o republicano Giuseppe Garibaldi organizou os camponeses em um exército que ficou conhecido como camisas vermelhas. Em 1860, os camisas vermelhas desembarcaram em Marsala e, sob o comando de Garibaldi, apossaram-se do Reino das Duas Sicílias.


Com essa vitória, em 1861, o país foi unificado e Vítor Emanuel II foi proclamado rei da Itália. Em 1866, Veneza foi incorporada à nova nação. Roma, anexada em 1870, tornou-se capital da Itália, apesar do interesse da Igreja Católica em manter a cidade independente e separada do novo reino.


A formação da Alemanha

A história da unificação alemã teve muitas semelhanças com a experiência italiana. Assim como na Itália e em outras regiões europeias, as invasões napoleônicas despertaram o nacionalismo alemão. A principal diferença foi que, naquele período, muitos alemães estavam espalhados e misturados a outros povos em toda a Europa Central.


Desde o término do Congresso de Viena, em 1815, a Alemanha estava dividida em vários Estados, reunidos na Confederação Germânica. Essa associação era dominada pelo Império Austríaco e pela Prússia.


O reino prussiano era industrializado e estava em busca de novos mercados consumidores para seus produtos. Em 1834, a Prússia criou o Zollverein, um acordo comercial que suprimia as barreiras alfandegárias entre os Estados alemães. Essa união alfandegária, porém, excluía a Áustria. 


O Zollverein impulsionou o desenvolvimento da indústria, do comércio e das comunicações de grande parte dos Estados germânicos. Com o potencial industrial crescendo, os grupos favoráveis à unificação se fortaleceram entre os alemães, principalmente porque a unificação representava a possibilidade de competir com os produtos ingleses.


Nas Revoluções de 1848, já havia ocorrido na Prússia um movimento por uma Alemanha unida e liberal, que reuniu burgueses, pequeno-burgueses e operários e obteve várias conquistas democráticas, como o sufrágio universal. A reação da nobreza conservadora, porém, pôs fim à revolução e revogou as conquistas liberais obtidas. Depois disso, a grande burguesia prussiana, temendo a mobilização popular, aliou-se à nobreza para conduzir a unificação.


Em 1862, por escolha de Guilherme I, rei da Prússia, Otto von Bismarck assumiu o cargo de *chanceler. Um dos principais líderes da Restauração conservadora de 1848, Bismarck transformou-se na figura mais importante da unificação alemã. O objetivo do chanceler era estimular o nacionalismo como estratégia para alcançar a unificação dos Estados germânicos.


* Chanceler: cargo equivalente ao de primeiro-ministro.



Pintura que representa as barricadas em Berlim, em 18 de março de 1848. Nessa data, as Revoluções de 1848 estouraram em Berlim, onde os rebeldes exigiam o fim da censura e a convocação de um Parlamento prussiano. Mesmo levantando barricadas para impedir o avanço dos soldados, 270 revolucionários morreram nos confrontos, a maior parte deles artesãos.


A unidade construída por meio da guerra

Bismarck escolheu o caminho da guerra para despertar (ou criar) o sentimento nacional nos alemães. Para isso, equipou e modernizou o exército prussiano, tornando-o a força armada mais poderosa da Europa. Seu primeiro movimento foi aliar-se aos austríacos e declarar guerra à Dinamarca, que dominava regiões ao norte, em 1864.


Dois anos mais tarde, o chanceler alemão aliou-se à Itália e declarou guerra à Áustria, avançando sobre o seu território. Vitorioso, ele conseguiu reunir, em 1867, todos os Estados do norte na chamada Confederação Germânica do Norte, liderada pela Prússia. A unificação caminhava a passos largos, mas ainda faltavam os Estados do sul.


Depois de uma série de provocações e atos hostis, Bismarck conseguiu o que planejava: Napoleão III, da França, declarou guerra à Prússia em 1870. A Guerra Franco-Prussiana, como ficou conhecida, não durou muito, pois o exército prussiano era uma grande potência militar, muito superior ao da França. Com a derrota, os franceses perderam a cobiçada região da Alsácia-Lorena, rica em carvão.


Em janeiro de 1871, Guilherme I foi coroado imperador da Alemanha, e Bismarck tornou-se chefe militar do país. É importante ressaltar que, apesar da importante liderança de Bismarck, a unificação alemã não foi uma obra individual. Ela resultou do desenvolvimento industrial da Prússia, da integração econômica de grande parte do território alemão e da expansão de uma cultura nacional e belicista.


Próxima aula

A expansão industrial na Europa e as novas teorias científicas

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terça-feira, 5 de dezembro de 2023

Agitações políticas e sociais na Europa do século XIX

 Agitações políticas e sociais na Europa do século XIX


Restauração e revolução

A derrota de Napoleão para as potências europeias na Batalha de Waterloo, em 1815, inaugurou na Europa uma disputa acirrada entre dois modelos de sociedade. De um lado, os que defendiam as bases do Antigo Regime, principalmente o absolutismo monárquico e os privilégios da nobreza e do clero. De outro, os defensores do liberalismo político e de hierarquias sociais decorrentes do mérito individual e não da condição de nascimento.


Os defensores do primeiro modelo predominaram desde o Congresso de Viena até 1830. Nesse período, conhecido como Restauração, as monarquias destituídas por Napoleão regressaram ao trono, constituições liberais aprovadas anteriormente foram suprimidas e regimes autoritários foram adotados em grande parte da Europa. Essa restauração conservadora foi em grande parte resultado das pressões da Santa Aliança, formada por Rússia, Áustria e Prússia.


Os líderes do Congresso de Viena também estabeleceram um novo mapa político da Europa. Eles reconheceram algumas conquistas territoriais dos Estados vencedores de Napoleão, fazendo o território da França recuar às fronteiras anteriores às chamadas guerras revolucionárias (1792-1802).



A partilha de territórios, caricatura francesa de 1815. Na imagem foram representados o rei francês Luís XVIII (1); o czar Alexandre I (2); o inglês Castlereagh (3); e Napoleão Bonaparte (4).


As revoluções do século XIX

Apesar de as forças restauradoras do Congresso de Viena se empenharem em restabelecer a antiga ordem na Europa, as ideias liberais despertadas pela Revolução Francesa não tinham desaparecido. Pelo contrário, elas alimentaram novos movimentos revolucionários em muitos países do continente, que explodiram em 1820. Tendo como centro a Itália, a Península Ibérica e a Grécia, as Revoluções de 1820 apresentaram um ingrediente novo: o nacionalismo, que se concretizava no projeto de construir um Estado nacional.


Na Grécia, as ideias liberais e nacionalistas inspiraram a luta pela independência do domínio otomano, reconhecida em 1829; nos reinos da Itália, o movimento se voltou contra a presença da dinastia francesa dos Bourbon e contra a dominação austríaca.


Contudo, foram as Revoluções de 1830 e 1848, pela capacidade de propagação e pelos resultados que produziram, que fizeram do século XIX o mais revolucionário que a Europa havia visto até então.


A onda revolucionária de 1830 começou na França após o rei Carlos X instituir as Ordenações de Julho. Elas acabavam com a liberdade de imprensa, dissolviam a Câmara dos Deputados e reduziam a população com direito ao voto. Revoltados com as medidas, nos dias 27, 28 e 29 de julho, os franceses ergueram barricadas pelas ruas de Paris e organizaram violentos protestos. Carlos X abdicou do trono e o movimento atingiu rapidamente outras regiões, como Bélgica, Península Itálica, Estados germânicos e Inglaterra.


Nem sempre as insurreições saíram vitoriosas. Porém, mudanças liberalizantes foram implementadas em alguns países. A Bélgica tornou-se independente dos Países Baixos e, na Inglaterra, as agitações produziram reformas que ampliaram o número de eleitores e fizeram entrar em cena o operariado, organizado em sindicatos e associações autônomas.



Barricada na Rua St. Antoine, em Paris, 28 de julho de 1830, gravura de 1830. A barricada, símbolo das revoluções de 1830 e 1848, consistia na interdição de ruas com trincheiras improvisadas. Essa gravura representa a revolta da classe média e dos trabalhadores, entrincheirados nas ruas parisienses contra as forças da realeza.


A Primavera dos Povos

Em 1848 ocorreu a principal onda revolucionária do século XIX. O movimento, conhecido como Primavera dos Povos, combinou as aspirações liberais da burguesia, os ideais nacionalistas e as reivindicações dos trabalhadores. A mobilização das camadas mais pobres foi impulsionada pela terrível crise econômica que atingiu toda a Europa entre 1846 e 1850, ocorrida devido às péssimas colheitas agrícolas. O custo de vida se elevou, indústrias dispensaram os operários e fecharam as portas e empresas ferroviárias interromperam muitas obras.


Assim como na década anterior, a onda revolucionária de 1848 começou na França. Em Paris, os franceses proclamaram a Segunda República, pondo fim à monarquia. O novo governo criou fábricas do Estado que geravam emprego aos operários e estabeleceu o sufrágio universal masculino. Porém, nas eleições para a Assembleia Constituinte, a burguesia saiu vitoriosa, derrotando os representantes dos operários. Com isso, as oficinas nacionais foram fechadas e a burguesia se manteve no poder.


Em regiões que futuramente formariam a Itália e a Alemanha, as rebeliões foram derrotadas, mas conseguiram implantar a república em alguns pequenos Estados. O esforço nacionalista nessas regiões caracterizava-se pela tentativa de reunir as unidades políticas dispersas (monarquias ou repúblicas) e formar um Estado nacional unificado.


Nessa época, o Império Austríaco também foi fortemente atingido por agitações liberais e, como resultado, aboliu o trabalho servil no campo. As conquistas liberais estimularam o nacionalismo dos húngaros, que se rebelaram contra a dominação austríaca. No entanto, com o auxílio de tropas russas, o exército austríaco derrotou a Revolução Húngara.


A combinação das ideias liberais com o nacionalismo e as questões sociais significou uma grande inovação nas lutas do período e expressou a revolta de vários grupos sociais contra a política conservadora e absolutista da Restauração.


As insurreições das classes populares também mostraram a violência da reação contrarrevolucionária das elites, que tentavam impedir que mudanças profundas acontecessem na maioria dos países europeus.



Fonte: DUBY, Georges. Atlas histórico mundial. Barcelona: Larousse, 2010. p. 231


A Primavera dos Povos no Brasil

As ideias revolucionárias de 1848 também atingiram o Brasil. Na província de Pernambuco, elas alimentaram a Revolução Praieira.


No campo, poucas famílias eram donas de grandes propriedades. Nas cidades, o comércio e as manufaturas eram controlados por portugueses e faltavam empregos.


A essa situação de desequilíbrio social, somou-se a crise política. Herdeiros de uma longa tradição liberal, os pernambucanos combatiam a extrema centralização política na corte do Rio de Janeiro. O estopim para a revolta foi a nomeação, por parte de D. Pedro II, de um conservador para governar a província. O movimento começou em Olinda, em novembro de 1848, onde recebeu grande adesão popular. Os praieiros reivindicavam o voto livre e universal, a liberdade de imprensa, o direito ao trabalho, a nacionalização do comércio de retalhos, o fim do Poder Moderador, entre outras mudanças.


De Olinda, os rebeldes avançaram para o Recife, mas as tropas imperiais impediram que eles tomassem a cidade. A luta dos rebeldes prosseguiu em forma de guerrilha até 1850, quando eles foram derrotados.


O surgimento do nacionalismo

A era napoleônica marcou profundamente a história europeia. Talvez o maior legado daquele período tenha sido a difusão da ideia de “nação”.


Aquela era uma ideia nova, que começou a ser construída no século XVIII e se fortaleceu ao longo do século XIX. Até então, os indivíduos se sentiam súditos de algum rei, por exemplo, “súditos do rei da França”, e o elemento que unia os membros daquela comunidade era o fato de estarem todos subordinados à autoridade do rei francês, vista como de origem divina.


Contudo, esse sentimento de união em torno de um monarca deixou de ser compartilhado por muitas pessoas. Alguns não confiavam mais em seus reis, porque eles haviam mudado tanto ao longo do tempo, em trocas políticas e militares, que era difícil acreditar que governavam por vontade e decisão divina.


Muitos também questionavam a capacidade e a legitimidade dos reis de liderar sua comunidade. E, por fim, havia aqueles que viviam no continente americano e não se sentiam representados por um rei que governava do outro lado do Atlântico e só se importava com seus súditos do além-mar para exigir deles que pagassem impostos e servissem ao exército.


À medida que a industrialização avançou, assim como as migrações da Europa para a América e do campo para as cidades, as pessoas perderam seu antigo vínculo com as pequenas comunidades em que viviam. Muitos passaram a se questionar sobre o que os unia, e logo surgiram grupos que passaram a divulgar a ideia de que compartilhar um idioma e uma cultura mais ou menos semelhantes era o que unia as pessoas de determinado local. A isso, começaram a chamar de “nação”.


Na Europa do século XIX, essa ideia de nação se ligava à de um território habitado por uma comunidade com língua e um passado em comum, governada por um Estado independente. Para que as pessoas se identificassem com essa ideia, políticos e intelectuais de cada reino começaram a resgatar personagens do passado (quase sempre homens e líderes políticos), convertendo-os em “heróis nacionais”, celebrados em feriados, moedas e monumentos públicos.



Lutando em frente ao Hotel de Ville, 28 de julho de 1830, pintura de Jean-Victor Schnetz, 1883. Essa pintura representa um dos episódios das Revoluções de 1830 na França.


A invenção da tradição

A escola também cumpriu um papel importante na tarefa de construir a nação. Os alunos deveriam aprender sobre os heróis e os grandes acontecimentos históricos da comunidade para se sentir parte dela e desejar construir juntos uma nação forte e independente. Também tinham de aprender um tipo de idioma definido como “nacional”, abandonando dialetos, tradições ou crenças religiosas vistas como regionais.


Cada país trilhou um caminho próprio na transição de um Estado vinculado ao monarca para outro em que os indivíduos se viam como súditos de um Estado-nação. Em alguns territórios se investiu na uniformização da língua (em especial na Europa); em outros, procurou-se criar vínculos até então inexistentes, como veremos adiante nos exemplos da Itália e da Alemanha.


O movimento nacionalista da primeira metade do século XIX tinha características liberais e defendia a autodeterminação dos povos contra a opressão estrangeira. Ao longo do século, em especial depois da Primavera dos Povos, o nacionalismo se tornou cada vez mais excludente, com o surgimento de ideias que pregavam a superioridade de uma nação sobre outras.


No século XX, o ideal nacionalista caracterizado pela intolerância em relação a outras nações se aprofundou, levando a guerras entre países, perseguições, campanhas de extermínio e uma série de violências contra quem vem de outras terras, tem outros usos e costumes e fala outra língua. O diferente passou a ser visto como perigoso.


Atualmente, essa face negativa do nacionalismo ainda se expressa no mundo todo, principalmente por meio de manifestações contra os imigrantes.



Poloneses comemoram o Dia da Independência da Polônia, Varsóvia, 2019. Na atualidade, em países europeus como Polônia, Hungria e Itália tem se alastrado um nacionalismo marcado pela xenofobia.


As fissuras do nacionalismo

A ideia de Estado-nação encobre diferenças culturais e conflitos históricos entre povos que vivem em um mesmo território. Para o Estado nacional se consolidar, diferenças internas tiveram de ser apagadas ou reprimidas


“Ao nos perguntarmos o que é uma nação, logo nos defrontamos com o fato de que tal ideia nem sempre existiu nem existiu em todos os lugares, mas teve um começo e talvez tenha um final. É importante percebermos também o caráter impositivo dessa construção discursiva e política, ou seja, toda nação e todo Estado-nação são fundamentados em uma cultura específica de um grupo dominante que sob a justificativa de que seus valores são os verdadeiramente ‘nacionais’, de que são os que melhor representam o Estado e o território ao qual pertencem, exclui todas as outras culturas também existentes em seu território. Tal vem acontecendo na história desde a própria origem do Estado nacional. Os exemplos são muitos: a Espanha, durante a Idade Moderna e quase todo o século XX, ao excluir as identidades de bascos, galegos e catalães de sua definição de identidade nacional, afirmando a hegemonia da cultura e do idioma castelhanos como os legítimos valores nacionais do país; Israel, hoje, ao negar aos palestinos uma série de direitos de cidadania; os Estados Unidos, durante o século XIX ao excluir indígenas e negros como membros da nação; o que se repete no Brasil nos séculos XIX e XX. Os exemplos são muitos ao longo da história.”


SILVA, Kalina Vanderlei; SILVA, Maciel Henrique. Dicionário de conceitos históricos. São Paulo: Contexto, 2009. p. 310.



Professor indígena ensina seus alunos do Ensino Fundamental em karib, família linguística à qual pertence a língua do povo Kalapalo. Aldeia Aiha, Parque Indígena do Xingu (MT), foto de 2018. Nas escolas indígenas do Brasil, os alunos têm aulas da língua falada pelo seu povo e de língua portuguesa, além de estudarem as disciplinas tradicionais de uma escola não indígena.


O Romantismo e a revolução

O Romantismo foi um amplo movimento sociocultural que atravessou os últimos anos do século XVIII e as primeiras décadas do século XIX. Influenciado pela Revolução Francesa e pela expansão napoleônica, o movimento captou e reproduziu nas artes em geral as tensões que se abatiam sobre a Europa revolucionária.


Os artistas românticos expressavam em suas obras a exaltação da liberdade contra a opressão do Antigo Regime, bem como o nacionalismo contra a influência estrangeira. A literatura e a música passaram a valorizar o idioma e o folclore nacionais, ao mesmo tempo que exaltavam a pátria diante da agressão estrangeira. Valorizando as tradições nacionais, os artistas românticos transformaram os povos e as nações nos grandes protagonistas da história.


Nas várias expressões da arte, os românticos se caracterizaram pela oposição ao racionalismo iluminista e aos temas da arte neoclássica. Eles propunham uma arte livre, guiada pela imaginação e pela emoção do artista. Defendiam a supremacia da intuição e dos sentimentos sobre a razão, das situações extremas sobre o equilíbrio e a harmonia e a retomada da união do ser humano com a natureza diante das novidades da sociedade industrial.


Além disso, os românticos valorizavam a época medieval, que para eles simbolizava o retorno à natureza, à religiosidade e às origens das nações. Com o tempo, os autores românticos voltaram-se cada vez mais para si mesmos, procurando representar os dramas e a solidão do indivíduo, que se refugia no sonho e na relação com a natureza.



A batalha da ponte de Arcole, pintura de Horace Vernet, 1826. O artista representou Napoleão Bonaparte liderando heroicamente os soldados franceses na vitória contra o exército austríaco na Itália, em 1796, durante a Revolução Francesa. Repare na dramaticidade da cena e no apelo nacionalista da obra


O Romantismo no Brasil

Inspirados nas teorias europeias, os representantes do Romantismo no Brasil procuraram aliar o objetivo de criar uma estética romântica no país à tarefa de fundar uma literatura e uma cultura genuinamente brasileiras. Para isso, os escritores procuraram valorizar aspectos que eram originais do Brasil, como a paisagem natural e o indígena, escolhidos como símbolos da nação brasileira.


Tradicionalmente, a literatura romântica brasileira está dividida em três fases. Veja a seguir.


* Primeira geração. Representada pelos escritores Gonçalves Dias, José de Alencar e Gonçalves de Magalhães, caracterizou-se pela construção de uma identidade nacional, valorizando o indígena, a natureza, o folclore e o clima do Brasil.

* Segunda geração. Ficou marcada pelo pessimismo, pelo fascínio em relação à morte e pelo sentimento de inadequação diante do mundo. Os principais expoentes dessa geração foram os poetas Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu e Fagundes Varela.

* Terceira geração. Também conhecida como “condoreirismo”, essa última fase se destaca pela preocupação com temas sociais. A poesia de Castro Alves, seu principal representante, denunciou a violência da escravidão e abraçou a causa abolicionista.

Na pintura, o Romantismo no Brasil combinou aspectos da arte neoclássica e da arte romântica. Alguns autores até mesmo questionam se houve, a rigor, uma pintura romântica brasileira. Os que discordam dessa visão citam as obras de Victor Meirelles, Araújo Porto-Alegre, Pedro Américo e José Maria de Medeiros como exemplos da pintura romântica no país. Acontecimentos históricos, a natureza brasileira e o indígena são os temas da pintura romântica nacional.



Iracema, pintura de José Maria de Medeiros, 1884. Note que essa mulher indígena, representada no centro de uma paisagem tropical, tem traços europeus. Sua postura lembra a das deusas das esculturas gregas.


Próxima aula

As unificações da Itália e da Alemanha

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segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

Mauá - O Imperador e o Rei (Filme completo)

 Mauá - O Imperador e o Rei


Mauá o imperador e o Rei


Link do filme

https://youtu.be/f3YVICTtY50?si=REl5Ti4xN-z9df4k


O filme mostra a infância, o enriquecimento e a falência de Irineu Evangelista de Souza (1813-1889), o empreendedor gaúcho conhecido como Barão de Mauá, considerado o primeiro grande empresário brasileiro, responsável por uma série de iniciativas modernizadoras para a economia nacional ao longo do século XIX.


Clique no link abaixo para ver o filme completo.

https://youtu.be/f3YVICTtY50?si=1L9PDqSNeJJ28mEv


domingo, 3 de dezembro de 2023

Indígenas, escravizados e imigrantes no Segundo Reinado - A política indigenista do império

Indígenas, escravizados e imigrantes no Segundo Reinado - A política indigenista do império


A política indigenista do império

De modo geral, políticos e intelectuais do século XIX consideravam os indígenas inferiores aos brancos; por isso, defendiam que, para o país se desenvolver, os indígenas deveriam ser submetidos à tutela do Estado, que incorporaria suas terras e os prepararia para se tornarem eficientes trabalhadores. Porém, havia discordâncias sobre como fazer isso.

Discutia-se, principalmente, se os indígenas deviam ser submetidos de forma pacífica ou violenta. Alguns, como José Bonifácio, defendiam a humanidade dos indígenas e sua capacidade de civilizar-se, propondo integrá-los por meio da educação, do trabalho e da mestiçagem; outros afirmavam que os indígenas eram selvagens e desumanos e só poderiam ser submetidos através da guerra e do extermínio.

Em junho de 1845, retomando as ideias de José Bonifácio, o imperador D. Pedro II instituiu o Programa de Catequese e Civilização dos Índios, que estabelecia o aldeamento das populações indígenas em colônias rurais. Nesses locais, os nativos seriam cristianizados e “civilizados” por missionários católicos, principalmente capuchinhos.

Aldeamentos foram criados em todas as províncias do império. Com essa política, o governo atendia a dois objetivos: integrar o indígena à sociedade brasileira, na condição de trabalhador rural, e liberar suas terras para os imigrantes europeus que começavam a chegar ao Sudeste do país.

A política indigenista, porém, não deu muitos resultados. Apesar de transformados, muitos indígenas mantinham suas aldeias e procuravam preservá-las, encaminhando petições para reivindicar direitos coletivos e afirmar sua identidade. Enfrentavam, no entanto, a pressão das autoridades e de moradores dos municípios, que escreviam para o governo central queixando-se de que não fazia sentido preservar aldeias que, segundo eles, tinham sido abandonadas por indígenas já civilizados.



Indígenas Umauá às margens do Rio Japurá, no Alto Amazonas, em foto do alemão Albert Frisch, c. 1865. Também conhecidos como Kambeba e Omágua, eles foram escravizados na exploração das drogas do sertão e na agricultura, a partir do século XVIII, submetidos a projetos missionários do Estado português e, depois, do governo imperial. Apenas no final do século XX seus descendentes voltaram a reafirmar sua identidade indígena.



Indígenas Bororo no estúdio do fotógrafo Marc Ferrez, em 1880. Em 1875, Ferrez começou a trabalhar na Comissão Geográfica e Geológica do Império e passou a realizar diversas expedições pelo Brasil, fotografando diferentes paisagens e seus habitantes.



Indígenas Ticuna às margens do Rio Amazonas, em foto do suíço Georges Leuzinger, c. 1867.


A persistência da escravidão

Nos últimos vinte anos, no Brasil, quase 50 mil pessoas foram libertadas do trabalho análogo à escravidão. Elas foram encontradas por fiscais do Ministério do Trabalho em locais como fazendas e fábricas, trabalhando sem remuneração ou sendo forçadas a cumprir jornadas mais longas do que a lei permite.

Esse resgate aconteceu por duas razões principais: o fato de a escravidão ser crime previsto em leis nacionais e internacionais, e a adoção de políticas públicas, nas últimas três décadas, para erradicar o trabalho escravo no país.

A permanência de condições de trabalho análogas à da escravidão no Brasil é também um reflexo do nosso passado. Durante a maior parte da nossa história, a escravidão foi defendida por muitos políticos que também eram donos de escravizados.


Uma nação escravista

Estima-se que, entre a segunda metade do século XVI e 1850, quase 5 milhões de africanos tenham sido capturados e trazidos para o Brasil como escravizados. A maior entrada ocorreu na primeira metade do século XIX, justamente o período de expansão da lavoura cafeeira.


Além de trabalhar nas fazendas de café, açúcar e algodão, os escravizados desenvolviam atividades urbanas. Eles trabalhavam nos portos carregando e descarregando mercadorias dos navios, em obras públicas, no comércio de rua e nos espaços domésticos. Nas cidades, os escravos de ganho tinham chances de juntar algum dinheiro e comprar a alforria. Já nas fazendas, as chances de comprar a liberdade eram remotas.


O exemplo mais significativo dessa nação sustentada pelo trabalho escravo era a cidade do Rio de Janeiro, a capital do império. Por volta de 1850, havia ali a maior concentração de escravizados das Américas, que chegava a cerca de 38% da população total da cidade.


As pressões inglesas pelo fim do tráfico

No início do século XIX, a Inglaterra aboliu o tráfico negreiro para suas colônias e iniciou uma política agressiva pela abolição do tráfico de escravizados em todo o mundo atlântico. As elites agrárias do Brasil e os traficantes de escravos, com forte influência na corte, resistiram ao máximo às pressões inglesas.


O que explicaria o fato de a Inglaterra, que havia sido líder do tráfico transatlântico de escravizados por três séculos, ter se transformado na grande adversária do comércio de seres humanos? Há muitas controvérsias sobre essa mudança na política inglesa. Vamos apresentar algumas possibilidades.

Ao abolir o tráfico em suas colônias, o governo inglês criou condições para que os colonos investissem os recursos, antes aplicados na compra de cativos, na aquisição de produtos industrializados ingleses.

O fim do tráfico nas Antilhas inglesas obrigou os proprietários a empregar trabalhadores assalariados nos engenhos de açúcar. Como consequência, o açúcar antilhano se tornou mais caro que o brasileiro, que continuou sendo produzido por escravizados.

A forte campanha abolicionista na Inglaterra, encabeçada pelos quakers e realizada por meio de petições públicas antiescravistas, artigos na imprensa e pressões sobre o Parlamento, não deixou saída para os políticos.

Em 7 de novembro de 1831, o governo regencial validou um tratado assinado cinco anos antes que previa a proibição definitiva do tráfico negreiro para o Brasil. Contudo, uma intensa campanha em defesa da manutenção do tráfico dominou o Parlamento brasileiro. A resistência dos escravistas foi tão grande que o tráfico não só continuou como aumentou expressivamente.



Homem com escarificações no rosto, decorrentes de castigos, foto de Augusto Stahl, 1864



Mulher com turbante, foto de Alberto Henschel, 1870.


A extinção do tráfico negreiro

As relações entre Inglaterra e Brasil se deterioraram quando o Parlamento britânico aprovou, em agosto de 1845, o Bill Aberdeen, lei que autorizava a marinha inglesa a apreender os navios negreiros e julgar os responsáveis em tribunais da Inglaterra.

O Bill Aberdeen provocou violentas reações de políticos brasileiros, que consideraram a medida uma violação à soberania nacional. Os ingleses ignoraram as reações brasileiras e reforçaram a fiscalização. Entre 1849 e 1851, cerca de 90 navios foram apreendidos pelos ingleses.

A queda de braço com a Inglaterra não duraria muito tempo. Em 1850, foi aprovada a Lei Eusébio de Queiroz, que proibia definitivamente o tráfico de escravizados para o Brasil. Essa medida trouxe várias consequências. Os capitais antes aplicados na compra de cativos foram deslocados para outras atividades. Ocorreu, assim, um incremento das indústrias, das ferrovias, dos telégrafos e da navegação.

Como saída para a obtenção de mão de obra, os cafeicultores e outros fazendeiros tiveram de recorrer ao tráfico interno ou interprovincial. As lavouras empobrecidas de cana-de-açúcar do Nordeste e o extremo-sul do país ampliaram a venda de escravizados para as lavouras do Sudeste, que se transformou na principal região escravista do Brasil. O tráfico realizado dentro do país continuou significativo até 1870, quando começou a declinar.



Ilustração atual representando navio negreiro interceptado por embarcações britânicas no Oceano Atlântico e escravizados sendo desembarcados em solo africano.


Abolição gradual e segura

A partir da década de 1860, o movimento pela abolição ganhou força no país, principalmente depois da Guerra do Paraguai (1864-1870), quando milhares de escravizados combateram nas fileiras do exército brasileiro.

A grande influência dos fazendeiros na Câmara, no Senado e no governo decidiu os rumos da abolição no Brasil. Ela seria lenta, gradual e segura, ou seja, sem riscos para os privilégios dos grupos dominantes.


Acompanhe a seguir os passos da legislação abolicionista no Brasil.

Lei Rio Branco (Lei do Ventre Livre). Aprovada em 1871, declarava livres os filhos de mulher escravizada nascidos a partir daquela data. As crianças livres ficariam com suas mães até os 8 anos de idade. Depois disso, os senhores podiam optar por receber uma indenização do Estado ou exigir que os libertos trabalhassem para eles até completarem 21 anos.

Lei Saraiva-Cotegipe (Lei dos Sexagenários). De 1885, libertava os escravizados com mais de 60 anos, ficando os libertos obrigados, a título de indenização, a trabalhar para seus antigos donos por três anos.

Apesar do caráter restritivo das duas leis, elas previam dispositivos legais que foram habilmente utilizados pelos escravizados para pleitear a alforria na justiça, negociar o preço da liberdade e questionar o direito de propriedade. Ao fazer isso, os cativos contestavam o direito senhorial e semeavam temores entre os proprietários, acelerando a falência da escravidão.



Capa da Revista Illustrada criticando a Lei dos Sexagenários, 1885. Nela, lê-se: “O coveiro dos sexagenários!, disse Joaquim Nabuco, no seu primeiro discurso na Câmara dos Deputados. Pobres velhos! O Dantas deu-lhes esperança de morrerem livres. O Saraiva quer enterrá-los algemados!”.


Um defensor do abolicionismo

O baiano Luiz Gama (1830-1882) nasceu livre, mas foi vendido como escravo pelo pai. Conseguiu fugir aos dezoito anos, em São Paulo. Autodidata, revelou-se poeta de talento e passou a escrever para os jornais locais. Gama se destacou nos meios literários e jornalísticos de São Paulo, condenando a escravidão, criticando o império e defendendo a república. Além disso, participou da fundação de jornais e ajudou a angariar fundos para a alforria de cativos. Ele obteve licença para trabalhar como advogado mesmo sem o curso de Direito. Frequentemente sem cobrar pelos serviços, passou a representar causas de escravizados na justiça. Conseguiu a liberdade para 500 negros. 


O fim da escravidão no Brasil

A partir da década de 1880, a campanha abolicionista tornou-se mais intensa. Associações e clubes voltaram-se contra a escravidão, fazendo propaganda e levantando fundos para a compra de cartas de alforria. Intelectuais, jornalistas, advogados, profissionais liberais, políticos e mesmo fazendeiros aderiam à causa abolicionista.

A participação organizada de intelectuais na campanha abolicionista foi representada em duas entidades principais: a Associação Central Emancipadora e a Sociedade Brasileira contra a Escravidão. A primeira, dirigida pelo jornalista José do Patrocínio, difundiu suas ideias no jornal Gazeta do Rio. A segunda, encabeçada pelo escritor e diplomata Joaquim Nabuco, entre outros políticos do império, moveu intensa campanha pela abolição no Parlamento brasileiro.

Além do movimento abolicionista, as fugas e as rebeliões de escravizados se tornaram frequentes, de modo que os cativos foram agentes decisivos para a crise da escravidão. Em 1881, por exemplo, escravizados fugitivos formaram, no município de Santos, no litoral paulista, o Quilombo do Jabaquara. Com a ajuda de abolicionistas (os chamados caifazes), entre eles filhos da elite cafeeira, o quilombo chegou a reunir 10 mil pessoas vindas das lavouras do interior de São Paulo e de outras regiões.

A situação se tornou insustentável. A mobilização negra era tão intensa que setores abolicionistas começaram a argumentar que a abolição “libertaria” os senhores da dependência da escravidão. Muitos proprietários, sem condições de impedir as fugas, tomavam a iniciativa de libertar os escravizados em troca de sua permanência na lavoura por mais alguns anos. Diante dessa situação, em 13 de maio de 1888, a princesa Isabel, que substituía provisoriamente seu pai, D. Pedro II, no governo, assinou a Lei Áurea, que aboliu a escravidão no Brasil.



A libertação dos escravos, pintura de Pedro Américo, 1889. No primeiro plano da obra, foram representados alguns escravizados agradecendo à Liberdade e, atrás deles, um demônio caído, símbolo da escravidão. No centro, foi retratada uma mulher vestindo um manto verde e amarelo e sentada em um trono. Provavelmente, trata-se da princesa Isabel.


Os libertos depois da abolição

Os ex-escravizados não receberam qualquer tipo de indenização ou auxílio para recomeçar a vida longe do cativeiro. Assim, grande parte deles continuou trabalhando nas fazendas para seus antigos senhores, em uma situação de dependência semelhante à da escravidão, em especial no Nordeste.

No Vale do Paraíba fluminense e paulista, foi comum encontrar libertos que estabeleceram regimes de parceria com seus antigos donos, tornaram-se pequenos sitiantes ou ainda tocadores de gado.

Muitos ex-escravizados também buscaram trabalho nas cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro. Em São Paulo, a maior parte deles, sem condições de concorrer com os imigrantes que chegavam para trabalhar nas nascentes indústrias, no artesanato e no pequeno comércio, foi obrigada a aceitar os trabalhos mais pesados, de baixa qualificação e mal-remunerados, como os de carregadores, marmiteiros, engraxates, jornaleiros, transportadores de peixe e parteiras. Os baixos salários mal davam para sobreviver e, por isso, era quase impossível essas pessoas ascenderem socialmente.

Essa exclusão social, em muitos casos, era legalizada. Antes da abolição, por exemplo, havia leis que proibiam os escravizados de trabalhar em determinadas profissões, como as de cocheiros e de caixeiros viajantes; após a Lei Áurea, elas se mantiveram e os libertos continuaram a ser impedidos de exercer tais atividades. A Lei de Terras, que veremos adiante, também contribuiu para esse processo.

Nesse contexto em que o Estado não se preocupou em criar políticas para inserir os libertos na sociedade, mantendo-os na marginalidade, formou-se um contingente de negros pobres e desocupados, que passaram a viver nas ruas ou em habitações precárias. A exclusão social acontecia ainda por meio do preconceito racial, que se intensificou com o estímulo à vinda de imigrantes ao Brasil a fim de “embranquecer” a população, como estudaremos em seguida.


Nhô João, deixa disso!, fotografia de Lunara, nome artístico do gaúcho Luiz do Nascimento Ramos. Porto Alegre (RS), c. 1910.


Os imigrantes no Brasil

Após a abolição do tráfico negreiro, em 1850, vários proprietários rurais e políticos do Centro-Sul começaram a tomar providências para incentivar a vinda de imigrantes europeus para trabalhar no Brasil e, assim, evitar uma crise de mão de obra. Com esse objetivo, o Parlamento brasileiro promulgou, em setembro do mesmo ano, a Lei de Terras.

No Brasil, desde o período colonial, as terras públicas podiam ser obtidas por meio de doação da Coroa, da compra ou ocupação. A regra mudou com a Lei de Terras, que determinou que a compra seria o único meio de aquisição das terras públicas. A nova lei previa também o incentivo à vinda de imigrantes europeus para trabalhar nas lavouras do Brasil, com os gastos assumidos pelo governo.

A mudança atendia aos interesses dos grandes proprietários rurais, pois os trabalhadores imigrantes pobres e os negros libertos dificilmente teriam recursos para comprar sua terra. Assim, o único recurso desses trabalhadores seria oferecer sua força de trabalho para os proprietários.

O incentivo à imigração europeia refletia a visão de alguns setores das elites brasileiras, influenciados pelas teorias racistas difundidas na Europa. De acordo com essa visão, os brancos eram superiores e, por isso, a civilização europeia havia atingido um grande progresso. Nessa perspectiva, a vinda de imigrantes europeus para o Brasil promoveria o “branqueamento” do país, contribuindo para o seu desenvolvimento.

O sonho de conseguir um bom emprego, de cultivar o próprio pedaço de terra e de assegurar aos filhos um futuro promissor foram os principais motivos que levaram quase 4 milhões de imigrantes a vir para o Brasil entre 1850 e 1920.



Redenção de Cam, pintura de Modesto Brocos, 1895.


Políticas de incentivo à imigração

Em São Paulo, o pioneiro na experiência com o trabalho imigrante foi o senador Nicolau Pereira de Campos Vergueiro, um rico fazendeiro de café do Oeste Paulista. Em 1846, ele levou 364 famílias suíças e alemãs para trabalhar nas lavouras de café de sua Fazenda Ibicaba, no município de Limeira. A iniciativa logo foi repetida por outros fazendeiros da região.

Os imigrantes eram contratados sob o sistema de parceria. Tinham a viagem paga pelo fazendeiro, que também assumia as despesas da família até a primeira colheita de café. Após a venda do café, o colono entregava ao proprietário metade da produção mais o correspondente a 6% de juros sobre as dívidas contraídas desde a viagem. O sistema, porém, não teve sucesso e foi abandonado.

Nos anos 1870, a burguesia cafeeira adotou o colonato, um novo programa de imigração para o Brasil. Por meio de um acordo com o proprietário, os imigrantes passavam a receber um salário fixo pelo trabalho nos cafezais e podiam cultivar alimentos na fazenda, como feijão, milho e hortaliças, e vender o excedente dessa produção.

Em 1871, o governo paulista instituiu a imigração subvencionada, pela qual ficava autorizado a ajudar os proprietários financiando os custos da viagem dos colonos estabelecidos em suas fazendas. O programa inaugurou o período mais ativo da imigração europeia para o Brasil. Em 1887, fundou-se a Hospedaria de Imigrantes, na cidade de São Paulo, com o objetivo de registrar, receber e encaminhar os imigrantes recém-chegados.



Imigrantes italianos em cafezal paulista, 1895.


Imigrantes no Sul do Brasil

A fixação de imigrantes no Sul do Brasil ocorreu por meio da formação de núcleos de colonização em torno da pequena propriedade. Esse processo foi incentivado pelo governo imperial, que, em parceria com as províncias do Sul, facilitou o transporte e liberou recursos para a aquisição de terras destinadas à instalação de núcleos de povoamento.

A Lei de Terras de 1850, por exemplo, previu a demarcação de terras devolutas para fins de colonização. Outras leis posteriores introduziram novas medidas para ampliar a presença de europeus na região. As colônias alemãs de Blumenau e Joinville, em Santa Catarina, e as italianas de Caxias e Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul, são exemplos desses núcleos.


Próxima aula

A crise da monarquia no Brasil

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sexta-feira, 1 de dezembro de 2023

Economia cafeeira - A expansão cafeeira no Brasil

Economia cafeeira - A expansão cafeeira no Brasil


O café: uma riqueza nacional

O café foi introduzido no Brasil no início do século XVIII, vindo da Guiana Francesa. Em pouco tempo, ele foi levado para a capitania do Rio de Janeiro, onde passou a ser cultivado para o consumo doméstico. Apenas no final do século XVIII, com a ampliação do consumo nos países do Ocidente, a produção para o mercado interno e externo começou a se expandir.

No começo do Segundo Reinado, o café já era o principal produto da economia brasileira, representando 40% das exportações do país e mais da metade da produção mundial. A rápida expansão do seu cultivo deveu-se a quatro fatores: abundância de terras, disponibilidade de mão de obra barata, condições climáticas favoráveis e aumento do consumo do produto no exterior.

A primeira fase da produção se estendeu até 1860 e teve como centro o Vale do Paraíba fluminense (Barra Mansa, Vassouras, Barra do Piraí etc.) e paulista (Taubaté, Areias, Bananal etc.). Essa região reunia condições naturais excelentes para o cultivo: terras virgens e férteis, chuvas regulares, relevo acidentado e altitudes médias entre 900 e 1.200 metros acima do nível do mar.

O cultivo de café no Vale do Paraíba seguiu o modelo adotado na agricultura de exportação do Nordeste, baseado na grande propriedade monocultora e na mão de obra escravizada. Sem investir em inovações técnicas, os fazendeiros procuravam aumentar a produção expandindo os cafezais para novas terras e ampliando o número de cativos.



Escravizados trabalham na secagem do café na Fazenda Quititi, no Rio de Janeiro, c. 1865. Fotografia de Georges Leuzinger.


O café no Oeste Paulista

Por volta de 1860, a cafeicultura no Vale do Paraíba dava sinais de decadência. O desmatamento, as queimadas, o sistema extensivo de produção e a ausência de técnicas para combater a erosão causaram o enfraquecimento do solo e a queda da produção.

Com o declínio da lavoura cafeeira no Vale do Paraíba, a economia do café entrou em uma nova fase, que teve como centro o Oeste Paulista. A região apresentava condições favoráveis ao cultivo, como o solo de terra roxa, muito fértil, a geografia pouco acidentada e grandes extensões de terras inexploradas.

Esses fatores, somados à adoção de novas técnicas agrícolas, fizeram com que os cafezais do Oeste Paulista fossem mais produtivos e duradouros que os do Vale do Paraíba. A aquisição de máquinas de secagem, ensacamento e beneficiamento do café, a partir de 1870, também contribuiu para o aumento da produção nessa área do interior paulista.

Principalmente na província de São Paulo, os fazendeiros não eram apenas proprietários rurais, mas empresários capitalistas. Com o lucro obtido das vendas, os cafeicultores introduziam inovações técnicas nas fazendas, bem como investiam em indústrias, bancos, ferrovias, casas de exportação e outros setores urbanos. Muitos representantes dessa burguesia cafeeira estavam estabelecidos nas cidades e participavam ativamente da vida política do país.


A expansão das ferrovias

A economia cafeeira contribuiu para o surgimento das estradas de ferro no Brasil. Para garantir e baratear o escoamento do café do interior até os portos litorâneos, foi necessário construir ferrovias próximas às lavouras. A primeira do país foi a Estrada de Ferro Mauá, inaugurada em abril de 1854, no Rio de Janeiro, que ligava a Vila de Inhomirim, na região serrana, à Baía da Guanabara. 

Em São Paulo, a primeira ferrovia foi a São Paulo Railway Company, construída com capitais ingleses, que entrou em operação em 1867. Ela ligava a cidade de Jundiaí, no Oeste Paulista, ao porto de Santos. Depois dela, outras estradas de ferro foram construídas em São Paulo, com recursos dos próprios cafeicultores, como a Paulista, a Mogiana e a Sorocabana.

O desenvolvimento das estradas de ferro também levou à urbanização e à industrialização de algumas áreas, principalmente em São Paulo.



Trabalhadores na estação de Rio Claro (SP), ponto final da linha férrea que partia da cidade de Analândia (SP), região do Oeste Paulista. Foto da década de 1910.


Próxima aula

Indígenas, escravizados e imigrantes - A política indigenista do império

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República Velha (1889 - 1930) República de Espada (1889 - 1894) e República do Café com Leite (1894 - 1930)

A República Velha (1889-1930): Das Espadas ao Café com Leite O que é uma República?  República, do latim "res publica"...