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Os trabalhadores na sociedade industrial
O trabalho no sistema fabril
A concentração dos trabalhadores num mesmo espaço, a divisão de tarefas, o fim da autonomia do artesão e o surgimento do patrão foram as mudanças fundamentais que marcaram o surgimento das fábricas.
Com a mecanização, o trabalhador passou de produtor a operador de máquinas, pois dominava apenas uma etapa do sistema de produção e não todo o processo. Cada vez mais o ritmo da vida e do trabalho deixou de ser determinado pelo ritmo da natureza e do corpo e passou a acompanhar o tempo da máquina.
“[...] todo operário tinha que aprender a trabalhar de uma maneira adequada à indústria, ou seja, num ritmo regular de trabalho diário ininterrupto, o que é inteiramente diferente dos altos e baixos provocados pelas diferentes estações no trabalho agrícola ou da intermitência autocontrolada do artesão independente. A mão de obra tinha também que aprender a responder aos incentivos monetários.”
HOBSBAWN, Eric. A era das revoluções (1789-1848).
São Paulo: Paz e Terra, 1991. p. 66.
As máquinas contribuíram decisivamente para criar um novo conjunto de valores e uma nova mentalidade, sobretudo nas cidades, onde as fábricas se concentravam. O mercado se tornou mais impessoal, pois os trabalhadores não conheciam mais os consumidores dos produtos que eles fabricavam.
Na sociedade urbano-industrial, as pessoas passaram a depender da tecnologia, e a eficiência passou a ser medida pelo menor tempo gasto na produção. Em outras palavras, o tempo passou a valer dinheiro. Nesse contexto, o relógio ganhou grande importância nas fábricas e na vida das pessoas.
Frank & Ernest, tirinha de Tom Thaves, 1996.
A ditadura do relógio
Uma das mudanças de hábito mais significativas que a fábrica trouxe foi o controle do tempo. Diferentemente das áreas rurais, onde a medição do tempo estava relacionada aos ciclos da natureza e às tarefas diárias no campo, nas cidades havia a disciplina do relógio.
Os relógios já existiam antes da Revolução Industrial, mas foi a necessidade de sincronizar o trabalho das fábricas que ampliou seu uso e fabricação. Com o relógio, foi possível disciplinar o horário de entrada e saída dos trabalhadores, o horário de almoço e o tempo gasto para realizar as tarefas da produção. Dentro da fábrica, os vigilantes e supervisores garantiam que os trabalhadores respeitassem os horários. Os patrões também instituíam prêmios para os operários mais disciplinados e multas para os descumpridores de horários e de outras normas.
“‘[...] na realidade não havia horas regulares: os mestres e os gerentes faziam conosco o que desejavam. Os relógios nas fábricas eram frequentemente adiantados de manhã e atrasados à noite; em vez de serem instrumentos para medir o tempo, eram usados como disfarces para encobrir o engano e a opressão [...].’”
Capítulos na vida de um garoto da fábrica de Dundee, na Escócia [1887].
In: THOMPSON, E. P. Costumes em comum: estudos sobre a cultura popular tradicional. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. p. 294.
Fora da fábrica também se desenvolveu a valorização do tempo dedicado ao trabalho e à produção.
O “tempo útil”, o tempo que rende dinheiro, ajudava a constituir uma nova moral e justificava a perseguição policial aos desocupados.
Vista da Rua Fleet, em Londres, pintura de Samuel Scott, século XVIII. Repare no grande relógio da Igreja de St. Dunstan. Com as novas relações geradas pela Revolução Industrial, o relógio tornou-se um importante instrumento de controle do tempo.
As mulheres trabalhadoras
A exploração do trabalho dos operários tornou-se fonte de enormes lucros para os empresários. Em geral, a jornada diária era de quinze horas, e os salários eram baixíssimos. Além disso, acidentes de trabalho e doenças decorrentes das condições insalubres das fábricas ocorriam com frequência.
No caso das mulheres, a situação era pior. Antes da Revolução Industrial, as trabalhadoras do meio urbano geralmente combinavam, no espaço doméstico, as tarefas de casa com o trabalho de fiação, tecelagem e bordado, ou seja, atividades relacionadas ao artesanato têxtil, consideradas tipicamente femininas.
A partir do século XIX, especialmente na Inglaterra, as mulheres operárias passaram a trabalhar fora de casa, nas fábricas, onde permaneciam por longos períodos, visando complementar a renda familiar. Mas, como legalmente elas viviam sob a tutela de seus pais ou maridos, seu salário não era visto como essencial para a família. Logo, os industriais usavam essa situação para pagar salários inferiores às mulheres, ainda que elas executassem as mesmas tarefas que os homens.
Além disso, os patrões alegavam que as mulheres não tinham conhecimento técnico para supervisionar o serviço, e, assim, delegavam a elas apenas tarefas relacionadas diretamente à produção, que tinham baixa remuneração. O baixo custo e a imagem que se tinha das mulheres como pessoas dóceis e submissas levaram os empresários a contratar cada vez mais a mão de obra feminina.
O ingresso das mulheres nas fábricas dividiu opiniões e criou problemas para elas. O político francês Jules Simon, por exemplo, em 1860 afirmou: “uma mulher que se torna trabalhadora deixa de ser mulher”. Declarações como essa mostram as dificuldades enfrentadas pelas mulheres operárias: no ambiente de trabalho, elas sofriam com as longas jornadas, as condições insalubres, a violência dos supervisores e os baixos salários; fora dele, tinham a obrigação de assumir as tarefas domésticas e o cuidado com os filhos, papéis que a sociedade da época reservava às mulheres.
A Revolução Industrial (1ª Revolução Industrial)
A mecanização da produção
Na segunda metade do século XVIII, com a Revolução Industrial, a manufatura começou a ser substituída pela maquinofatura. Contínuos inventos no setor de fiação permitiram que as novas máquinas, operadas por poucos trabalhadores, aumentassem a velocidade e a precisão da produção. A tarefa do trabalhador era alimentar a máquina, controlar sua velocidade e zelar por sua manutenção.
O setor têxtil foi pioneiro na industrialização. O fato de a produção artesanal têxtil ser uma das mais antigas, remontando às primeiras civilizações do Oriente Próximo, possibilitou que várias inovações fossem feitas no setor ao longo dos anos, tanto no Oriente quanto no Ocidente. As viagens e transações comerciais muitas vezes permitiam que inovações técnicas dos dois lados fossem compartilhadas e difundidas.
Um exemplo desse intercâmbio de conhecimentos é o tear de fitas, trazido do Oriente e aperfeiçoado no Ocidente. Ele permitia tecer várias fitas ao mesmo tempo, com o emprego de um único operário.
Gravura de 1834 representando máquinas de impressão de tecido acionadas por correias e eixos movidos por motores a vapor.
Inovações como essas elevaram a produtividade do setor têxtil e muitas vezes causaram revoltas entre os tecelões, que temiam ficar sem trabalho.
“Foi alguma coisa bem dramática o uso desse tear: temerosas do desemprego entre os tecelões, as autoridades de Dantzig [Gdansk, na Polônia], cidade do inventor, suprimiram o invento e estrangularam o autor. Isso aconteceu em 1579. E não foi o único caso. Muitos inventores ou inovadores foram perseguidos até com a morte para não afetarem a ordem estabelecida.”Inovações como essas elevaram a produtividade do setor têxtil e muitas vezes causaram revoltas entre os tecelões, que temiam ficar sem trabalho.
CANÊDO, Letícia Bicalho. A Revolução Industrial: tradição e ruptura – adaptação
da economia e da sociedade rumo a um mundo industrializado. 2. ed. São Paulo:
Atual; Campinas (SP): Editora da Unicamp, 1986. p. 16. (Coleção Discutindo a história)
Outra razão que explica o pioneirismo do setor têxtil na industrialização foi o interesse dos fabricantes em investir em inovações tecnológicas na produção, sem muitos custos. A Inglaterra já dominava o comércio mundial de tecidos manufaturados de algodão, que tinha dois fortes mercados: o tráfico de escravizados na África, principalmente, e as colônias europeias na América.
Antes de surgirem as primeiras fábricas, os tecidos de algodão comercializados pelos ingleses eram comprados principalmente na Índia, onde a Companhia Britânica das Índias Orientais exercia grande influência econômica, política e militar. Além de vender tecidos a baixo custo para os mercadores ingleses, a Índia* forneceu o algodão, matéria-prima que abasteceu as manufaturas e as primeiras fábricas têxteis criadas na Inglaterra.
* Índia: refere-se à Índia britânica (atuais Índia, Bangladesh, Paquistão e Mianmar), que se tornou área de influência do Império Britânico no século XVII e possessão colonial da Coroa inglesa em 1857.
Resumindo, a conjunção de experiência no setor, matéria-prima, capitais, mão de obra barata vinda dos campos, vasto mercado e leis que estimulavam a livre iniciativa possibilitaram que a Inglaterra desse o grande salto na produção de tecidos. Assim, foi criado o sistema fabril, ou seja, a indústria moderna. Reunindo máquinas operadas por trabalhadores, a fábrica era capaz de multiplicar a quantidade de artigos produzidos a um custo muito baixo.
Os inventos da Revolução Industrial
A madeira era o material básico empregado na fabricação das primeiras máquinas têxteis, que eram colocadas em movimento principalmente pela energia hidráulica. A dependência em relação à força da água levava muitos proprietários a instalar suas indústrias à margem dos rios.
Por que então o aperfeiçoamento da máquina a vapor por James Watt, em 1769, foi adotado como marco da Revolução Industrial? A importância da máquina a vapor nesse momento foi fornecer a força necessária para bombear a água das minas de carvão e extrair um mineral de melhor qualidade. O carvão foi o combustível que permitiu desenvolver a metalurgia do ferro.
As contínuas inovações na máquina a vapor e na fundição do ferro promoveram a grande mudança tecnológica da Revolução Industrial: a obtenção de um ferro barato que pôde substituir a madeira e ser utilizado na fabricação de máquinas, pontes, navios e ferrovias.
Veja os principais inventos que permitiram a mecanização da produção têxtil, que foi a primeira indústria moderna.
- Lançadeira volante (1735). Inventada por John Kay, a máquina permitia fabricar tecidos largos em menos tempo e com reduzida mão de obra.
- Spinning jenny (1764). Invento de James Hargreaves que consistia em uma roda de fiar na qual o artesão controlava oito fusos de uma vez, podendo chegar a oitenta fusos.
- Water-frame (1769). Patenteado por Richard Arkwright, o invento usava a água como força motriz para produzir fios mais grossos, permitindo a fabricação de tecidos puros de algodão.
- Mule-jenny (1779). Inventada por Samuel Crompton, a máquina cruzava a tecnologia da jenny com a da water-frame, fabricando um fio fino e resistente, que podia ser utilizado na produção de tecidos de algodão, musselinas* e de vários outros materiais.
*Musselina: tecido fino, delicado e transparente de fibra de algodão, muito usado na confecção de vestidos.
Muitas técnicas aplicadas na criação dessas máquinas resultaram de estudos anteriores à Revolução Industrial. A grande contribuição desses inventores foi reunir conhecimentos já existentes e aperfeiçoá-los com uma finalidade prática: a fabricação de máquinas que aumentavam de maneira espetacular a velocidade da produção. A concentração dos trabalhadores na fábrica, submetidos à rígida disciplina, permitiu baratear ainda mais os custos de produção e elevar os lucros dos proprietários.
As máquinas na Revolução Industrial
Ao longo dos séculos XVIII e XIX, inúmeras máquinas foram inventadas para automatizar processos produtivos já existentes, como a fiação e a tecelagem. O grande salto para a produção em larga escala ocorreu quando essas máquinas passaram a ser movimentadas por alguma força motriz não humana, e isso ocorreu em espaços que passaram a ser chamados fábricas.
As primeiras fábricas
Construídas na década de 1770, na Inglaterra, as primeiras fábricas aproveitavam o movimento da água dos rios para mover máquinas têxteis, permitindo a produção de fios e tecidos em um ritmo mais veloz do que nas manufaturas.
INFOGRAFIA: WILLIAM TACIRO, MAURO BROSSO E MARIO KANNO
A passagem para o vapor
Por séculos, inventores tentaram usar o vapor como fonte de energia. No século XVIII, uma sucessão de inovações técnicas permitiu aperfeiçoar os motores a vapor. A máquina a vapor inventada em 1769 pelo engenheiro escocês James Watt foi, por sua eficiência, revolucionária.
A máquina de Watt, aperfeiçoada mais tarde com outros inventos, foi empregada como força motriz nas minas de carvão, nas fábricas e nos transportes.
Como a Revolução Industrial impactou a organização do trabalho e a vida social do trabalhador?
A Revolução Industrial, iniciada na Inglaterra no final do século XVIII, provocou profundas mudanças na organização do trabalho e na vida dos operários nas cidades industriais. Com a introdução das máquinas e do sistema fabril, o modelo de produção artesanal foi substituído pela produção mecanizada, caracterizada pela divisão do trabalho, aumento da produtividade e redução dos custos.
No entanto, essas transformações tiveram impactos sociais significativos:
1. Organização do trabalho
Divisão e especialização: Os trabalhadores passaram a desempenhar tarefas repetitivas e específicas, perdendo a autonomia sobre o processo produtivo.
Jornadas exaustivas: Eram comuns jornadas de 12 a 16 horas diárias, inclusive para mulheres e crianças.
Trabalho infantil: Crianças eram amplamente empregadas, muitas vezes em condições perigosas, devido ao baixo custo da mão de obra.
Disciplina rígida: Havia controle intenso do tempo, ritmo e comportamento dos trabalhadores, com punições para atrasos ou falhas.
2. Condições de vida
Urbanização acelerada: O êxodo rural levou milhares de pessoas às cidades industriais, resultando em crescimento desordenado.
Habitações precárias: Os bairros operários surgiram com condições insalubres, sem saneamento básico adequado.
Problemas de saúde: A poluição, a superlotação e a má alimentação provocavam epidemias e alta mortalidade.
Baixos salários: Apesar do aumento da produção, a maior parte dos lucros ficava com os donos das fábricas, enquanto os operários recebiam remunerações mínimas.
3. Consequências sociais
Surgimento do proletariado industrial: Uma nova classe social composta pelos trabalhadores das fábricas.
Conflitos e movimentos sociais: A exploração deu origem a movimentos como o ludismo (quebra de máquinas), cartismo (reivindicação de direitos políticos) e a formação dos primeiros sindicatos.
Desigualdade social: O crescimento econômico beneficiou principalmente a burguesia industrial, ampliando a distância entre ricos e pobres.
Como a Revolução Industrial impactou o espaço geográfico?
A Primeira Revolução Industrial (século XVIII – início do XIX) provocou profundas transformações no campo e, principalmente, nas cidades, dando origem a um processo intenso de urbanização. Esse fenômeno ocorreu devido à combinação de fatores econômicos, tecnológicos e sociais que alteraram a forma de viver e trabalhar.
1. Como ocorreu a urbanização
Êxodo rural: Com o avanço da mecanização no campo — como o uso de novas máquinas agrícolas — muitos camponeses perderam seus empregos e migraram para as cidades em busca de trabalho nas fábricas.
Crescimento das cidades industriais: Regiões com maior concentração de indústrias, como Manchester e Londres, na Inglaterra, passaram a receber grandes fluxos populacionais.
Transformação do espaço urbano: As cidades se expandiram rapidamente para abrigar os novos operários, mas sem planejamento adequado.
2. Principais consequências da urbanização
a) Condições de vida
Habitações precárias: O aumento rápido da população resultou em bairros superlotados e insalubres, conhecidos como cortiços.
Falta de saneamento básico: A ausência de infraestrutura favoreceu a proliferação de doenças e epidemias.
Aumento da criminalidade: A pobreza extrema e a falta de políticas públicas contribuíram para altos índices de violência.
b) Mudanças sociais
Surgimento do proletariado urbano: Uma nova classe social formada pelos trabalhadores das fábricas, submetidos a longas jornadas e baixos salários.
Ampliação das desigualdades: Enquanto a burguesia industrial acumulava riqueza, a maioria da população operária vivia em condições precárias.
Movimentos trabalhistas: A precarização da vida nas cidades impulsionou revoltas e a organização dos primeiros sindicatos.
c) Impactos ambientais
Poluição: O uso intensivo de carvão e a concentração de fábricas causaram poluição do ar e dos rios.
Degradação urbana: O crescimento desordenado gerou problemas estruturais que persistiram por décadas.
Resumo
A urbanização durante a Primeira Revolução Industrial foi rápida, intensa e desordenada. Se, por um lado, trouxe oportunidades de emprego e dinamizou a economia, por outro, gerou péssimas condições de vida, desigualdade social, problemas ambientais e conflitos trabalhistas.
A relação entre a Revolução Industrial e o Capitalismo
A Primeira Revolução Industrial (século XVIII – início do XIX) está diretamente ligada ao surgimento do capitalismo industrial, um novo modelo econômico que transformou profundamente a forma de produzir, consumir e distribuir riquezas no mundo.
1. Relação entre a Revolução Industrial e o capitalismo industrial
Antes da Revolução Industrial, predominava o capitalismo comercial, marcado pelo lucro obtido principalmente nas trocas marítimas, no comércio de especiarias, metais preciosos e escravos. Com o advento da Revolução Industrial, esse modelo evoluiu para o capitalismo industrial, caracterizado por:
Produção mecanizada em larga escala → substituiu o trabalho artesanal.
Investimento em tecnologia e máquinas → o capital passou a ser aplicado na indústria, não apenas no comércio.
Formação da burguesia industrial → empresários e donos de fábricas que passaram a controlar os meios de produção.
Surgimento do proletariado urbano → trabalhadores assalariados que vendiam sua força de trabalho.
2. Alterações na economia mundial
A Revolução Industrial ampliou a interdependência entre as nações e reorganizou as relações econômicas globais:
a) Crescimento da produção e do consumo
A produção de bens aumentou de forma inédita, tornando produtos antes caros mais acessíveis.
O surgimento do mercado de massas estimulou novas formas de consumo.
b) Expansão do comércio internacional
Países industrializados passaram a exportar produtos manufaturados e a importar matérias-primas baratas.
Criou-se uma relação de dependência entre países industrializados (centro) e não industrializados (periferia).
c) Desenvolvimento do sistema financeiro
Bancos, bolsas de valores e companhias de investimento cresceram para sustentar a industrialização.
O crédito e os empréstimos tornaram-se essenciais para financiar fábricas e novas tecnologias.
d) Imperialismo e colonização
As potências industriais buscaram mercados consumidores e fontes de matéria-prima em outras regiões, intensificando a colonização na África e na Ásia.
Resumo
A Primeira Revolução Industrial deu origem ao capitalismo industrial, que transformou a economia mundial ao:
Aumentar a produção e o consumo;
Intensificar o comércio global;
Consolidar a supremacia dos países industrializados;
Gerar novas desigualdades econômicas e sociais.
Vivemos a Quarta Revolução Industrial?
Segundo alguns economistas, o mundo vive hoje a Quarta Revolução Industrial. Integrando tecnologias digitais, físicas e biológicas, ela afetará, na visão deles, a vida de todas as pessoas.
“Há três razões pelas quais as transformações atuais não representam uma extensão da Terceira Revolução Industrial, mas a chegada de uma diferente: a velocidade, o alcance e o impacto nos sistemas. [...]
Também chamada de 4.0, a revolução acontece após três processos históricos transformadores. A primeira marcou o ritmo da produção manual à mecanizada, entre 1760 e 1830. A segunda, por volta de 1850, trouxe a eletricidade e permitiu a manufatura em massa. E a terceira aconteceu em meados do século XX, com a chegada da eletrônica, da tecnologia da informação e das telecomunicações.
Agora, a quarta mudança traz consigo uma tendência à automatização total das fábricas [...]. O que vem por aí, dizem os teóricos, é uma ‘fábrica inteligente’. Verdadeiramente inteligente. O princípio básico é que as empresas poderão criar redes inteligentes que poderão controlar a si mesmas. [...]
[A] parte mais controversa da quarta revolução [é que] ela pode acabar com 5 milhões de vagas de trabalho nos quinze países mais industrializados do mundo.”
PERASSO, Valeria. O que é a 4a Revolução Industrial e como
ela deve afetar nossas vidas. BBC Brasil, 22 out. 2016.
Disponível em <http://mod.lk/ym7jd>. Acesso em 16 jan. 2020.
JOHN THYS/AFP
Estude a Segunda Revolução Industrial
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Os Estados Unidos no século XIX
Um país dividido pela escravidão
Até meados do século XVIII, o arroz e o tabaco dominavam a agricultura do sul dos Estados Unidos. Com o surgimento de fábricas têxteis na Inglaterra, a produção de algodão foi estimulada e os estadunidenses passaram a exportar esse produto para abastecer as indústrias inglesas. Assim, no início do século XIX, as plantações de algodão já eram hegemônicas na paisagem sulista.
A grande demanda pela matéria-prima exigia o uso de muita mão de obra, composta basicamente de africanos escravizados. Mesmo com a proibição do tráfico negreiro nos Estados Unidos, em 1808, as fazendas sulistas continuaram a ser abastecidas pelo tráfico ilegal de cativos. Em 1860, a população escravizada, que chegava a quase 4 milhões, representava um terço da população dos estados do sul.
Na segunda metade do século XIX, a manutenção da escravidão nos Estados Unidos gerava grande polêmica e dividia o país. Enquanto os estados do sul eram favoráveis à escravidão, os estados do norte, com uma indústria em franca expansão e a produção rural organizada em pequenas propriedades, defendiam o trabalho livre e assalariado. Apesar dessas diferenças, tanto no sul quanto no norte prevalecia a ideia de que o homem branco fazia parte de uma “raça” superior à do negro africano.
O libertador
Em 1830, o estudante William Garrison (1805-1879) fundou, em Nova York, o jornal The Liberator, que pregava o fim imediato da escravidão nos Estados Unidos. A maioria dos leitores, a princípio, era formada de negros alfabetizados pelas igrejas protestantes. Os próprios negros garantiam a sobrevivência do jornal. Aos poucos, outros pregadores abolicionistas, incluindo brancos, se interessaram em manter o periódico.
Ilustração do jornal The Liberator, 1900, sugerindo, de forma crítica, que apenas Cristo poria fim à escravidão no país.
A caminho da guerra civil
A questão escravista dominou as discussões sobre a integração das novas terras do oeste dos Estados Unidos e foi um dos principais motivos para a eclosão de uma guerra civil no país.
Os fazendeiros do sul pretendiam expandir suas grandes propriedades em direção ao oeste, ampliando o uso da mão de obra escrava. Os estados do norte, ao contrário, queriam impedir o avanço da escravidão e desejavam que, nessas novas terras, a pequena propriedade familiar predominasse. No entanto, decretar o fim do trabalho cativo interferiria na soberania dos estados sulistas.
Para agravar a discussão, as elites políticas e econômicas do norte, interessadas em estimular sua crescente indústria, defendiam o aumento das tarifas alfandegárias para se proteger da concorrência dos produtos importados e criar um poderoso mercado interno. O sul, por sua vez, queria manter as tarifas de importação baixas para adquirir produtos estrangeiros mais baratos.
O ápice da crise entre as duas regiões veio com as eleições de 1860, quando o nortista Abraham Lincoln foi eleito presidente do país. Apesar de ser antiescravista, Lincoln não era um abolicionista declarado. Republicano moderado, ele propunha manter a escravidão nos estados em que ela já era praticada e, ao mesmo tempo, prometia combater qualquer movimento separatista, projeto cada vez mais alimentado pela elite sulista.
O discurso ambíguo de Lincoln deixou o sul ainda mais insatisfeito. Em resposta, o estado da Carolina do Sul decidiu separar-se dos Estados Unidos. Dez estados seguiram o exemplo e, em fevereiro de 1861, fundaram um novo país: os Estados Confederados da América.
Gravura do século XIX que representa negros escravizados sendo vendidos no estado sulista da Louisiana, Estados Unidos.
A guerra e o fim da escravidão
A formação dos Estados Confederados da América foi o estopim para a eclosão da Guerra Civil Americana ou Guerra de Secessão (1861-1865). O conflito colocou em lados opostos o exército da União, representado pelos estados do norte e vários estados do oeste, e o exército confederado. Apesar de o sul contar com militares experientes, o norte tinha um número superior de soldados, recursos de comunicação mais sofisticados e, sobretudo, um desenvolvimento industrial que lhe garantiu estar sempre mais bem armado e abastecido.
Além disso, a liderança política do presidente Lincoln foi muito importante para o desfecho do conflito. Durante a guerra, ele proibiu a entrada de mercadorias de primeira necessidade nos estados do sul, obrigando muitos soldados confederados a desertarem, e decretou a Lei do Confisco, que autorizava a apreensão de todos os bens dos confederados, incluindo os escravizados que caíssem em mãos da União.
Aos olhos dos escravizados, essas medidas tornaram-se uma grande oportunidade para conquistar a liberdade. Dessa forma, quando o exército da União invadia uma área sulista, muitos cativos promoviam fugas coletivas.
Nesse contexto, Lincoln criou condições favoráveis para vencer a guerra. Diante da pressão de setores abolicionistas e com o objetivo de ganhar popularidade, o presidente decretou o fim da escravidão em todos os estados em janeiro de 1863. Enfraquecido e sem recursos, o sul se rendeu em 1865.
A Guerra Civil Americana é considerada a primeira guerra moderna por duas razões: nela foram utilizados pela primeira vez navios encouraçados e armas de técnica avançada, como fuzis e revólveres; a luta teve caráter geral, voltando-se não apenas para aniquilar o exército adversário, mas também para destruir todos os recursos e comunicações do inimigo. Com 600 mil mortos, esse foi o conflito com o maior número de vítimas na história do continente.
Artilheiros do exército da União e da artilharia pesada de Nova York posicionados em uma fortificação na Virgínia, instalada para defender Washington, a capital. Foto de 1862. Entre as armas usadas pelo exército, estavam os canhões, que eram abastecidos com diferentes tipos de projéteis (localizados ao lado do soldado sentado).
Segregação racial
A abolição da escravidão e a vitória da União, antiescravista, na Guerra Civil Americana não garantiram aos negros do país a conquista da cidadania.
Os ex-escravizados dependiam do acesso à educação, da aquisição de terras e do direito ao voto para conseguir atuar como cidadãos. Porém, os democratas, muito fortes no sul, lutavam contra esses direitos; e os republicanos moderados, que estavam no governo do país, pensavam que o fim da escravidão já tinha sido suficiente. Prevalecia em todo o país a ideia de que a “raça negra” era inferior.
Os Estados Unidos, especialmente o sul do país, tornaram-se cada vez mais segregacionistas. Negros e brancos não podiam conviver em espaços públicos, a não ser nos locais de trabalho. A política de segregação chegou ao extremo na década de 1870, quando alguns estados da federação aprovaram as Leis Jim Crow, proibindo, por exemplo, que negros e brancos frequentassem os mesmos restaurantes, estações de trem, escolas, barbearias, banheiros, entre outros espaços públicos. Essas leis só foram revogadas na década de 1960.
Um exemplo da intolerância racial nos Estados Unidos foi a fundação, em dezembro de 1865, da Ku Klux Klan (KKK), associação secreta criada por veteranos do exército confederado insatisfeitos com os rumos do país e, principalmente, com o fim da escravidão.
Racista e terrorista, a KKK pregava a supremacia branca e colocava-se como a defensora da moral cristã e da ordem social dominada pelos brancos. Seus membros promoviam atentados contra a população negra, além de atacar judeus, chineses, brancos que apoiavam os direitos dos negros e outros grupos considerados inferiores pela organização. Por promover linchamentos e assassinatos, a organização foi declarada terrorista e banida do país.
Parada da Ku Klux Klan em Washington DC, nos Estados Unidos, em 1926. Mesmo proibida, a KKK continuou crescendo no país até a Segunda Guerra Mundial, com a conivência de muitas autoridades e empresários.
A expansão territorial dos Estados Unidos
A expansão dos Estados Unidos para além do território original das treze colônias começou ao final da guerra de independência, quando o país adquiriu da Grã-Bretanha uma grande faixa de terra a oeste dos Montes Apalaches. No início do século XIX, o território estadunidense se ampliou com a anexação da Louisiana, comprada da França, e da Flórida, comprada da Espanha.
A contínua expansão dos Estados Unidos em direção ao oeste logo atingiu a fronteira com o México. Independente desde 1821, o México tinha um extenso território, grande parte dele habitado por povos indígenas. Na década de 1820, interessado em impedir o avanço de grupos indígenas nas terras do Texas, o governo mexicano autorizou a fixação de colonos estadunidenses na região.
A colônia do Texas cresceu e prosperou. Porém, na década de 1830, o governo mexicano tomou medidas para estabelecer um regime centralista no país, revogando a autonomia dessa região. A medida incitou os colonos do Texas a se rebelar. Com o apoio de tropas mercenárias dos Estados Unidos, eles conquistaram a independência em 1836 e proclamaram a república. O presidente mexicano, detido, foi obrigado a reconhecer a independência do Texas.
A contínua expansão do território dos Estados Unidos e a independência do Texas, conduzida por colonos, contribuíram para a difusão, no país, de uma ideologia que afirmava que os estadunidenses eram o povo eleito por Deus para expandir seu domínio em direção às terras do oeste. Essa ideologia foi formalizada pela primeira vez em um artigo assinado pelo jornalista John O’Sullivan, em 1845, no qual ele empregava o termo Destino Manifesto para defender a anexação do Texas como direito legítimo dos Estados Unidos.
Para os mexicanos, contudo, o Texas pertencia ao México. As tensões entre os dois países se agravaram em 1845, quando um plebiscito no Texas aprovou sua incorporação aos Estados Unidos. Em seguida, um destacamento do exército estadunidense ocupou uma área do Texas que ia além dos limites definidos em 1836. Esse acontecimento foi o ápice para que o México declarasse guerra aos Estados Unidos, em março de 1846. O conflito foi marcado por sucessivas vitórias estadunidenses. Em 1847, a Cidade do México foi ocupada.
A Guerra Mexicano–Americana, também conhecida como Guerra Estados Unidos-México ou Guerra México/EUA, foi o primeiro grande conflito impulsionado pelas ideias do Destino Manifesto, ou seja, a crença de que os Estados Unidos tinham o direito, dado por Deus, de expandir suas fronteiras por toda a América, civilizando-a. O conflito se deu entre Estados Unidos e México, entre 1846 e 1848, e teve enormes consequências para o futuro das nações envolvidas. Com a intervenção, os Estados Unidos ampliaram o seu território em cerca de um quarto (25%), enquanto México perdeu aproximadamente metade do seu (50%)
Com o tratado que pôs fim à guerra, o México cedeu aos Estados Unidos os territórios de Nevada, Utah, Novo México, Arizona, o oeste do Colorado e a Alta Califórnia, onde, até hoje, as principais cidades possuem nomes espanhóis: Los Angeles, San Francisco, San Diego e Sacramento. Com a vitória sobre o México e a negociação com os britânicos sobre o Óregon, em 1846, os Estados Unidos completaram os limites continentais de seu território.
A formação dos Estados Unidos (século XIX)
Fonte: National Atlas of the United States. Disponível em <http://mod.lk/y5opv>. Acesso em 17 jul. 2018.
O massacre indígena
Desde o início do século XIX, vários grupos indígenas haviam se deslocado de suas terras originais em direção ao oeste dos Estados Unidos, pressionados pelas constantes invasões de suas terras, ora por agentes do Estado, ora por exploradores e agricultores.
Em maio de 1830, o então presidente Andrew Jackson sancionou o Ato de Remoção Indígena (Indian Removal Act). A lei autorizava o governo dos Estados Unidos a remover os povos indígenas de suas terras originais, obrigando-os a se estabelecer em reservas indígenas criadas em regiões muito distantes da costa leste, a oeste do Rio Mississípi.
Os indígenas resistiram à decisão do governo estadunidense com as armas que possuíam e lutaram na Justiça para reivindicar o direito às suas terras ancestrais, mas não obtiveram sucesso.
Nesse deslocamento forçado, os indígenas cruzaram a pé uma distância de mais de 1.500 quilômetros. Essa experiência dramática foi marcada por resistência, fome, sofrimento e morte, processo traumático que os cherokees traduziram na expressão The Trail of Tears (A Trilha das Lágrimas), ainda viva na memória coletiva. A situação dos povos indígenas, no entanto, se tornaria ainda mais difícil com a expansão para o este.
Ao terminar o século XIX, em relação à dimensão territorial das treze colônias, os Estados Unidos contavam com um território onze vezes maior. Passou também por um intenso crescimento demográfico, em razão principalmente da imigração de europeus: de 5 milhões de habitantes, em 1780, para 23 milhões, em 1850.
Veja a aula Segunda Revolução Industrial (parte da migrações ultramarinas)
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Analise os fatores que incentivaram a ida de europeus para os EUA ao longo do século XIX.
Visando promover a ocupação do oeste, em 1862 o Congresso dos Estados Unidos promulgou o Homestead Act. Por meio desta lei, o governo concedia um lote de terra para qualquer família ou cidadão maior de 21 anos que estivesse disposto a migrar para a região e cultivar as terras recebidas durante um prazo mínimo de cinco anos.
Nesse processo, no entanto, princípios consagrados pela Revolução Americana, como a liberdade e a igualdade dos homens perante a lei, foram colocados de lado. De forma bastante violenta, muitas terras habitadas pelas populações indígenas foram tomadas, levando à dizimação da maioria desses povos.
Indígenas hopi na aldeia Oraibi, estado do Arizona (EUA), em foto de 1903. Fundada por volta de 1100, a aldeia Oraibi, segundo os arqueólogos, é uma das mais antigas povoações indígenas habitadas continuamente nos Estados Unidos.
A política imperialista dos Estados Unidos
Influencia e dominação estadunidense
“A América para os americanos”. Esse conhecido lema sintetiza as ideias da Doutrina Monroe, lançada em 1823 em um discurso proferido pelo então presidente dos Estados Unidos James Monroe. As ideias dessa doutrina foram elaboradas durante a Restauração conservadora na Europa, que se seguiu à queda de Napoleão e à realização do Congresso de Viena.
A Doutrina Monroe expressava, por um lado, uma política defensiva dos Estados Unidos diante de qualquer tentativa das potências europeias de recolonizar o país. Por outro lado, essa doutrina já continha, de forma embrionária, a ideia de que os Estados Unidos tinham o direito de conquistar as terras indígenas e de impor sua influência sobre os povos latino-americanos.
A justificativa teórica para esse direito foi encontrada na religião, com a ideologia do Destino Manifesto. Sob a influência da teoria calvinista da predestinação, os estadunidenses se apresentavam como o povo eleito de Deus para levar a civilização e o cristianismo protestante aos povos indígenas e católicos da América.
Bad Religion - American Jesus (Legendado)
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Assim, com motivações econômicas e justificativas religiosas, a expansão territorial dos Estados Unidos continuou após a conquista dos territórios mexicanos. Ela só foi interrompida durante a Guerra de Secessão; mas, terminado o conflito, foi logo retomada e impulsionada.
Em 1867, os Estados Unidos compraram o Alasca da Rússia. Em 1898, anexaram o Havaí e se envolveram na guerra pela independência de Cuba. O objetivo era impedir que a Grã-Bretanha, com o fim do Império Espanhol na América, ampliasse seu poder na região. Vencida, a Espanha reconheceu a independência de Cuba e entregou as Filipinas e Porto Rico aos Estados Unidos. Cuba se tornou uma espécie de protetorado estadunidense.
No início do século XX, a Doutrina Monroe foi reformulada com a declaração do corolário Roosevelt. O nome surgiu de uma mensagem do presidente Theodore Roosevelt ao Congresso dos Estados Unidos, em 1904, em que defendia o direito de o país promover intervenções armadas nos países da América Latina em nome da civilização, da estabilidade e da ordem.
Charge de Louis Darlymple, de 1905, que satiriza a política dos Estados Unidos em relação à América Latina. No centro, o presidente Theodore Roosevelt segura um grande porrete.
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