segunda-feira, 27 de novembro de 2023

França Antártica, escravidão e resistência indígenas

França Antártica, escravidão e resistência indígenas


Escravidão e resistência indígena


Alianças, guerras e escravidão

No início do século XVI, os indígenas estavam presentes em praticamente toda a costa brasileira. Para que pudessem fundar vilas e construir engenhos de açúcar nas áreas litorâneas, os portugueses procuraram estabelecer alianças com povos nativos que ali viviam.

Depois disso, os colonizadores passaram a comprar de indígenas aliados prisioneiros capturados em guerra para escravizá-los. Como justificativa, alegavam que a compra e a escravização do prisioneiro o salvavam da morte no ritual de antropofagia. Essa prática ficou conhecida como resgate.


Antropofagia é a ação de comer carne humana, o que entre humanos é também conhecido como canibalismo. A antropofagia era praticada em rituais esotéricos como forma de quem come incorporar as qualidades do indivíduo que é comido, como a bravura e a coragem de um guerreiro derrotado.

Visando obter mais cativos, os portugueses incentivaram seus aliados a entrar em conflito contra outros povos, alterando a relação dos indígenas com a guerra. Se antes os Tupi, por exemplo, guerreavam para vingar a morte de parentes, com os portugueses, que muitas vezes lhes providenciavam armas, passaram a agir interessados nas vantagens que recebiam deles.


Contudo, a aliança com os portugueses não impediu que muitos povos indígenas fossem escravizados, pois suas aldeias também foram alvo constante de ataques promovidos pelos colonos.



Índios atravessando um riacho, pintura de Agostino Brunias, 1800.


Franceses, portugueses e indígenas

Desde 1500, várias embarcações francesas percorriam a costa brasileira traficando o pau-brasil e especiarias. Alguns homens chegaram a permanecer na terra para fazer amizade com os indígenas e aprender a sua língua. Em 1555, três navios franceses, com cerca de 600 colonos, chegaram à Baía da Guanabara com o objetivo de fundar um povoamento permanente. A expedição era comandada por Nicolas Durand de Villegagnon, que nomeou a colônia de França Antártica.


Mapa França Antártica


Os franceses se estabeleceram em uma pequena ilha, onde construíram casas, praças e o Forte Coligny. Para isso, contaram com a ajuda dos Tupinambá, que os portugueses chamavam de Tamoio. Os indígenas forneceram água e alimentos e ajudaram a levantar as edificações. A amizade dos franceses com os indígenas Tupinambá transformou-se em uma aliança guerreira contra os portugueses e contra indígenas inimigos.


Forte Coligny (em francês Fort Coligny) localizava-se na ilha de Serijipe (atual ilha de Villegagnon), no interior da baía de Guanabara, na atual cidade e estado do Rio de Janeiro, no Brasil.


Na ocasião, não havia ainda nenhum povoamento português no local, e a presença francesa não pareceu importante para o rei de Portugal. A situação começou a mudar em 1557, quando uma nova expedição de franceses chegou à Baía da Guanabara e se uniu ao grupo inicial. A maior parte era formada de protestantes calvinistas, conhecidos como huguenotes, que vieram para o Brasil fugindo da perseguição católica na França.


Além da ameaça territorial, a ocupação francesa era vista como um entrave à fé católica no Brasil. Em carta endereçada ao infante D. Henrique em 1560, o padre Manuel da Nóbrega escrevera que os franceses tinham vindo ao Brasil para difundir o protestantismo entre os nativos e mandado os indígenas convertidos propagarem a nova fé.


 A Coroa portuguesa decidiu agir enviando um novo governador-geral para a colônia, Mem de Sá. Em 1560, ele tomou o Forte Coligny. Cinco anos depois, em 1565, os portugueses receberam o reforço de uma frota de colonos e indígenas aliados, comandada por Estácio de Sá, sobrinho do governador-geral. No local foi fundada a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.


Mem de Sá, também documentado como Mem de Sá Sottomayor, (Coimbra, c. 1504 — Salvador, 2 de março de 1572) foi um nobre e administrador colonial português.



Estácio de Sá (Santarém, 1520 — Rio de Janeiro, 20 de fevereiro de 1567) foi um militar português, fundador da cidade São Sebastião do Rio de Janeiro, e primeiro governador-geral da Capitania do Rio de Janeiro, no período colonial.


A guerra entre indígenas, portugueses e franceses se estendeu, com poucas tréguas, até 1567, quando a aliança franco-indígena foi derrotada pelas tropas de Mem de Sá. Vitoriosos, portugueses e seus aliados indígenas exterminaram centenas de Tamoio. Os sobreviventes foram capturados e escravizados.


A experiência da França Antártica foi documentada por dois franceses: o religioso católico André Thévet, que veio na primeira expedição e publicou, em 1557, Singularidades da França Antártica; e o calvinista Jean de Léry, membro da segunda expedição, que publicou, em 1578, Viagem à terra do Brasil. As duas obras foram publicadas na Europa depois que os autores deixaram o Brasil.


Filme Vermelho Brasil - Filme completo (clique no link abaixo para ver)

https://www.youtube.com/watch?v=6IAcEAV7hAM&t=2753s


A guerra justa

Em 1570, principalmente em decorrência da pressão dos padres jesuítas, a Coroa portuguesa proibiu a escravidão de indígenas. Porém, para satisfazer a necessidade de mão de obra na colônia, estabeleceu-se que ela seria permitida em caso de guerra justa.


Os portugueses chamavam de guerra justa toda guerra empreendida contra povos indígenas considerados inimigos, incluindo os “índios bravos”, ou seja, aqueles que se negavam a selar aliança com os portugueses ou que se aliavam a seus inimigos (como os franceses); os que recusavam a presença de um padre em sua aldeia; os que fugiam para os sertões e os que ofereciam algum tipo de resistência à colonização.


Conforme a lei, os indígenas somente poderiam ser escravizados em situações de “Guerra Justa”, ou seja, quando eram hostis aos colonizadores. Apenas o Rei poderia decretar uma “Guerra Justa” contra uma tribo, apesar de que Governadores de Capitanias também o tenham feito.


Na prática, os portugueses utilizaram o princípio da guerra justa para legitimar a escravidão indígena e estimularam guerras contra povos até então pacíficos com o objetivo de escravizá-los.


Os aldeamentos jesuítas (Missões ou reduções)

A comitiva de Tomé de Sousa, primeiro governador-geral do Brasil, chegou a Salvador em 1549. Com ela vieram também os primeiros padres jesuítas, encarregados de educar e catequizar os indígenas e os filhos dos colonos. Visando facilitar a evangelização dos nativos, os padres criaram, em várias partes da colônia, aldeamentos, também chamados de missões.


Tomé de Sousa (Rates, 1503 — 1579) foi um militar e político português, primeiro governador-geral do Brasil, cargo que exerceu de 1549 a 1553.



Os jesuítas são os padres que fazem parte da Companhia de Jesus, uma ordem religiosa. Essa ordem religiosa foi fundada por Inácio de Loyola, em 1534. Procuraram expandir a fé católica pelo mundo e impedir o avanço do protestantismo na Europa.



As missões jesuíticas na América, também chamadas de reduções, foram os aldeamentos indígenas organizados e administrados pelos padres jesuítas no Novo Mundo, como parte de sua obra de cunho civilizador e evangelizador.


Os aldeamentos buscavam eliminar o estilo de vida autônomo dos indígenas, catequizando-os e obrigando-os a seguir um modo de vida europeu: vestir roupas, falar a língua portuguesa, adotar nomes cristãos etc. Além disso, os indígenas deviam abandonar seus rituais, a poligamia e muitos de seus conhecimentos tradicionais.


As sociedades indígenas prezam muito por duas coisas: respeito e ligação com a natureza e respeito à sabedoria dos anciãos. É ainda comum nas tribos indígenas o pensamento de uma vivência sustentável — retirando da natureza somente aquilo que é necessário para a manutenção da vida.



Definição de poligamia.


Nas missões, os indígenas também eram obrigados a seguir a disciplina de oração e de trabalho imposta pelos religiosos, que administravam a mão de obra nativa e a emprestavam aos fazendeiros da região por tempo determinado.


Os jesuítas e a colonização

A Companhia de Jesus foi criada na Europa em 1534 e, desde o início, esteve engajada no projeto de colonização português, desenvolvendo atividades missionárias na Ásia, na África e na América. No Brasil, antes de criar os primeiros aldeamentos de indígenas, os padres fundaram colégios em Salvador e no Rio de Janeiro, onde estudavam filhos de colonos, além de uns poucos indígenas e órfãos.


A educação era uma das estratégias para a evangelização e a doutrinação de nativos e europeus.


Formas de resistência

Uma das principais formas de resistência indígena à escravização foi a fuga para o interior. Também houve casos de indígenas de povos diferentes que se uniram para enfrentar ataques das tropas coloniais.


A partir do século XVII, outra estratégia adotada por muitos indígenas foi se aliar a africanos escravizados e a brancos pobres e passar a habitar os quilombos ou mocambos, povoados de resistência ao poder colonial.


Quilombos, também conhecidos como mocambos, foram comunidades formadas no Brasil durante o período colonial por brancos pobres, indígenas e africanos escravizados e/ou seus descendentes. Os quilombos são entendidos como espaços de resistência contra a escravidão, desigualdade e a injustiça, uma vez que eram formados por escravos fugidos ou por pessoas mestiças pobres.


Além disso, como a escravidão indígena era proibida, exceto em casos de guerra justa, os indígenas escravizados podiam recorrer a um tribunal português, alegando que sua captura havia sido ilegal, e reivindicar a liberdade. Na Amazônia portuguesa do século XVIII, mais da metade dos pedidos de liberdade foram feitos por mulheres. Elas estendiam os pedidos para seus filhos, já que a condição de cativo era legada pelas mães. As sentenças costumavam ser favoráveis aos indígenas, entretanto, como estavam inseridos em uma sociedade escravista, os resultados obtidos pela via institucional eram limitados. A sentença mais comum determinava que os índios ficassem livres para servir aos colonos que quisessem.


Mesmo entre os indígenas que permaneceram aliados aos portugueses, houve espaços de liberdade. Isso porque a Coroa dependia desses indígenas e da boa relação com os seus líderes para formar exércitos em tempos de guerra e para defender o território. Percebendo o interesse dos portugueses em evitar conflitos, líderes indígenas aproveitavam para negociar com os colonizadores uma vida de mais liberdade para o seu povo.

O recrutamento de indígenas para os aldeamentos, chamado de descimento, era feito pelos missionários jesuítas. Em nome da Coroa, eles buscavam convencer os nativos a se transferirem espontaneamente para as missões. Caso os indígenas se recusassem por muito tempo, podiam ser acusados de rebeldia, o que permitiria que fossem escravizados com base no princípio da guerra justa.


Diversos grupos indígenas aceitaram viver em aldeamentos acreditando que o sistema criado pelos padres garantia proteção contra povos inimigos e contra a escravidão, além de permitir a convivência com outros indígenas em condições mais seguras.


Potiguara: alianças e resistência

No século XVI, os Potiguara podiam ser encontrados em toda a costa que vai do Maranhão até o norte de Pernambuco. Nesse período, os senhores de engenho de Pernambuco enviavam regularmente expedições para exterminar ou tentar estabelecer alianças com os Potiguara que viviam nas capitanias mais ao norte com o intuito de ocupar as terras onde hoje se localizam os estados da Paraíba e do Rio Grande do Norte.


Outra estratégia adotada pelos portugueses foi estabelecer alianças com os Tabajara, inimigos dos Potiguara que também viviam na região. Os Potiguara, por sua vez, aliaram-se aos franceses, inimigos dos portugueses. Com o apoio francês, eles se tornaram a maior resistência aos portugueses no Nordeste. No entanto, no final do século XVI, os franceses foram derrotados, e os Potiguara tiveram de fazer as pazes com os portugueses.


A aliança com os holandeses

Nas primeiras décadas do século XVII, interessados em controlar a produção de açúcar, os holandeses invadiram a capitania de Pernambuco. Aproveitando-se dessa situação, algumas lideranças Potiguara selaram uma aliança com os holandeses e lutaram ao lado deles nas guerras contra os portugueses.


Foi o caso de Pedro Poty e Antônio Paraupaba. Em 1625, eles foram levados à Holanda, onde viveram por cinco anos, aprenderam a língua e os costumes dos aliados e converteram-se ao calvinismo. De volta ao Brasil, Poty liderou muitos indígenas Potiguara nas lutas contra os portugueses na região da Paraíba. Capturado pelos inimigos, ele foi brutalmente torturado nas prisões coloniais.


Com a vitória portuguesa, os holandeses foram expulsos do Brasil, em 1654. Os Potiguara se tornaram alvo de novas guerras de extermínio promovidas pelos portugueses e seus aliados indígenas. Os sobreviventes fugiram para as serras do Rio Grande do Norte ou foram obrigados a se submeter à administração colonial.


Os portugueses separaram os Potiguara em aldeamentos distantes para que não formassem alianças, levando esse povo a perder muito de sua força política e, com isso, grande parte de suas terras.


Terras Indígenas Potiguara

Atualmente, os Potiguara são o quinto povo indígena mais numeroso do Brasil e o grupo mais expressivo da Região Nordeste, tendo registrado, em 2014, uma população superior a 18 mil pessoas. As Terras Indígenas Potiguara (Potiguara, Jacaré de São Domingos e Potiguara de Monte-Mor) ocupam uma área contígua dos municípios de Marcação, Baía da Traição e Rio Tinto, todos na Paraíba. Muitos Potiguara vivem também nos estados de Pernambuco, Ceará e Rio Grande do Norte. Mas, nesses estados, suas terras ainda não foram oficialmente reconhecidas pelo Estado brasileiro, gerando diversos conflitos.


As terras habitadas pelos indígenas Potiguara há mais de 500 anos têm sido constantemente invadidas. Os principais responsáveis por isso são fazendeiros, posseiros, grandes usineiros de açúcar e turistas interessados em construir casas de veraneio.


Localização das Terras Indígenas Potiguara reconhecidas pelo Estado brasileiro 


Próxima aula

Nordeste açucareiro

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domingo, 26 de novembro de 2023

Conquista e o início da colonização (pau-brasil, Tratado de Tordesilhas, capitanias hereditárias e o governo-geral)

 A conquista e o início da colonização (pau-brasil, Tratado de Tordesilhas, capitanias hereditárias e o governo-geral)



Capitanias hereditárias


Período Pré-Colonial (1500 - 1530)

O Período Pré-Colonial foi um curto espaço de tempo entre a chegada da esquadra de Pedro Alvares Cabral até a efetivação da colonização do Brasil. Foi um período marcado pelo reconhecimento das novas terras e da sua viabilidade econômica (exploração do pau-brasil, procura por metais e pedras preciosoas, o início do cultivo da cana-de-açúcar) e pela expulsão de piratas que tentavam invadir o Brasil.



Características período pré-colonial (1500 - 1530)


O valioso pau-brasil



Dentro do contexto do mercantilismo português, o pau-brasil foi a mercadoria que incentivou o início da exploração portuguesa nas Américas.


Em suas primeiras incursões à América, os exploradores portugueses não encontraram ouro nem pedras preciosas. Por essa razão, a Coroa priorizou seus domínios no Oriente, buscando garantir as lucrativas rotas de comércio nas Índias.


No entanto, nas primeiras expedições à América, uma árvore nativa despertou o interesse comercial dos portugueses. Era o pau-brasil, do qual se extraía uma tinta vermelha muito cobiçada na Europa, utilizada para tingir tecidos e pintar manuscritos.


Alcançando até 30 metros de altura, as árvores de pau-brasil cresciam na Mata Atlântica, especialmente no litoral sul do atual estado da Bahia. Por sua madeira ser muito dura e resistente, foi também bastante utilizada em obras da construção civil e na fabricação de embarcações.



Ilustração atual representando o trabalho dos indígenas na extração e no carregamento de madeira de pau-brasil até os navios portugueses, em troca de artigos europeus.


A primeira atividade econômica da colônia

A Coroa portuguesa logo estabeleceu o monopólio real sobre a exploração do pau-brasil. Isso significa que para extrair e comercializar a madeira os portugueses deveriam obter uma autorização régia e pagar tributos à Coroa.



Na sua forma clássica e mais pura, monopólio é o domínio de um único fornecedor sobre a oferta de um produto ou serviço que não possui substituto.


Na floresta, a madeira era explorada por meio do escambo, regime de troca de mercadorias ou serviços que não envolve dinheiro. O trabalho era realizado pelos indígenas, que cortavam a madeira e a carregavam até os navios em troca de peças de tecido, contas coloridas, canivetes, facas, espelhos, entre outros itens trazidos pelos portugueses.



Pau-brasil, mão-de-obra indígena e escambo. Pilares da exploração portuguesa no período pré-colonial.


Leia o relato do viajante francês Jean de Léry (c. 1536-c. 1613) sobre o uso da mão de obra indígena na extração do pau-brasil.


“Os selvagens, em troca de algumas roupas, camisas de linho, chapéus, facas, machados, cunhas de ferro e demais ferramentas trazidas por [...] europeus, cortam, serram [...] o pau-brasil, transportando-o nos ombros nus às vezes de duas ou três léguas de distância, por montes e sítios escabrosos até a costa junto aos navios ancorados, onde os marinheiros os recebem.”


LÉRY, Jean de. Viagem à terra do Brasil. São Paulo: Edusp; Belo Horizonte: Itatiaia, 1980. p. 168.


A exploração do pau-brasil foi tão intensa que devastou a espécie. Hoje, a árvore está restrita a poucas áreas de preservação no litoral de alguns estados brasileiros e se encontra tão ameaçada quanto outras espécies da Mata Atlântica.



Detalhe do mapa Terra Brasilis, atribuído a Lopo Homem, Pedro e Jorge Reinel, 1519.


A colonização de fato

Como a extração de pau-brasil não exigia a fixação dos portugueses no território, não houve, inicialmente, a criação de povoados. Os portugueses se limitaram a construir feitorias, uma espécie de posto que funcionava como armazém, local de abastecimento dos navios e fortaleza destinada a proteger o território. Porém, a presença constante de pessoas de outros países, principalmente franceses, interessados em explorar o pau-brasil, começou a preocupar a Coroa portuguesa. As expedições guarda-costas enviadas pelo rei para combater os franceses não deram resultado.



Exemplo de feitoria


Diante desse quadro, a partir de 1530 a Coroa portuguesa precisou tomar medidas para não perder sua colônia americana. A ideia era estimular a fixação de portugueses, explorando uma atividade econômica que gerasse lucros e ao mesmo tempo garantisse a defesa da colônia. A solução encontrada foi a agricultura, e o produto escolhido foi a cana-de-açúcar.


Primeiro, porque os portugueses já cultivavam cana-de-açúcar nas Ilhas da Madeira e de Cabo Verde, no Atlântico africano, tendo conhecimentos técnicos para a produção de açúcar. Segundo, porque o açúcar era muito valorizado pelas elites europeias. E, por último, porque o litoral nordestino do Brasil oferecia condições adequadas ao cultivo da cana: clima quente e úmido e a presença de solo massapê.



O cultivo da cana-de-açúcar incentivo a fixação de portugueses na América portuguesa e o início da colonização de fato.


Para o plantio da cana, no entanto, era preciso fixar os portugueses no território. Assim, com o objetivo de criar núcleos de povoamento na região, em 1531 a Coroa enviou uma expedição, comandada por Martim Afonso de Souza. Em 1532, Martim Afonso fundou São Vicente, a primeira vila portuguesa em terras americanas, onde introduziu o cultivo de cana. Iniciava-se, assim, a efetiva colonização do Brasil.



Vila de São Vicente, fundada em 1532 por Martim Afonso


As capitanias hereditárias e o governo-geral

No início da colonização, o governo português não tinha recursos financeiros nem pessoal suficiente para assumir diretamente a colonização do Brasil. Por isso, transferiu a tarefa a particulares, por meio do sistema de capitanias hereditárias, modelo que já era adotado nas ilhas do Atlântico.



Capitanias hereditárias foram a primeira tentativa da Coroa portuguesa de organizar a ocupação e colonização do Brasil. O sistema foi implantado na década de 1530 e consistiu em destinar aos nobres portugueses o direito de explorar uma região chamada de capitania. Foram estabelecidas 14 capitanias hereditárias.


Assim, o território foi dividido em quinze faixas de terra, a partir do litoral até a linha imaginária do Tratado de Tordesilhas. As capitanias foram doadas pela Coroa portuguesa a membros da pequena nobreza e a militares de alta patente que tinham recursos para assumir os custos da colonização.



Esse tratado, assinado em 1494,  traçou uma linha imaginária de 370 léguas a oeste das Ilhas de Cabo Verde, onde definiu os limites de exploração entre portugueses e espanhóis na América do Sul. As terras descobertas a oeste pertenceriam a Espanha e as descobertas a leste pertenceriam a Portugal. A consequência desse tratado foi que Portugal obteria terras no Atlântico Sul.



Após o Tratado de Tordesilhas, outros surgiram e criaram os limites territoriais do nosso país. 


Fundação de São Vicente, pintura de Benedito Calixto, 1900.


As pessoas que recebiam essas terras eram chamadas de capitães donatários. As capitanias podiam ser herdadas por seus filhos, mas não podiam ser vendidas, já que pertenciam à Coroa portuguesa.

A carta de foral estabelecia os direitos e os deveres dos donatários, tais como os seguintes.


Direiros e deveres capitães donatários



Definição de capitão donatário


O sistema de capitanias, porém, fracassou na tarefa de estimular a colonização. Os altos custos do empreendimento, o isolamento das capitanias, as doenças tropicais e as relações hostis com grupos indígenas, entre outras dificuldades, impediram que a maior parte delas se desenvolvesse. Somente duas prosperaram: Pernambuco, chefiada por Duarte Coelho, e São Vicente, do donatário Martim Afonso de Souza.


Com o insucesso do sistema de capitanias, em 1548 a Coroa criou o governo-geral, um centro político para administrar todo o Brasil, com sede em Salvador. O governador-geral tinha a responsabilidade de garantir a defesa da colônia e fazê-la prosperar. O primeiro governador-geral foi Tomé de Sousa, que chegou ao Brasil em 1549.


As câmaras municipais

Enquanto a administração de toda a América portuguesa ficava sob a responsabilidade do governo-geral, a administração das vilas e cidades era incumbência das câmaras municipais. Somente os homens-bons, isto é, grandes proprietários de terra e de escravizados, que eram portugueses ou seus descendentes, podiam ser eleitos para os cargos dessas instituições.


As câmaras municipais eram responsáveis por organizar o cotidiano das vilas e cidades. Elas providenciavam a construção de obras públicas, zelavam pela limpeza das ruas, cobravam impostos, controlavam e registravam as categorias profissionais, fixavam os pesos e as medidas, recebiam pedidos e reclamações da população e os enviavam diretamente ao rei, entre outras atribuições. Como na época o Estado português e a Igreja Católica estavam unidos, as câmaras também organizavam as cerimônias e festas religiosas.



Fonte: Atlas histórico escolar. Rio de Janeiro: FAE, 1991. p. 16


Interação entre indígenas e portugueses

No início da ocupação portuguesa, as relações com os indígenas foram pacíficas, mesmo com a exploração do pau-brasil. Diversos povos se aliaram aos portugueses, inclusive por meio do concubinato ou mesmo do casamento entre mulheres indígenas e colonizadores.


Na convivência com os indígenas, os portugueses aprenderam a se orientar nas matas, a reconhecer a aproximação de cobras, onças e outros perigos, a fabricar canoas com um único tronco de árvore etc.


Além disso, o milho, a mandioca e outros produtos da dieta indígena foram incorporados à alimentação portuguesa e criaram raízes na cultura que se formaria mais tarde no Brasil.


Porém, como estudaremos adiante, as tensões cresceram quando os portugueses começaram a escravizar os nativos. Como consequência da escravização, dos conflitos e das mortes provocadas pelas doenças trazidas pelos europeus (como gripe, sarampo e varíola), no século XVII, muitas populações nativas já haviam sido dizimadas.



Indígena Wauja preparando beiju, Parque Indígena do Xingu (MT), 2019. O beiju, preparado a partir da mandioca, é um alimento de origem indígena muito apreciado nos dias de hoje pelos brasileiros.


Período Colonial (1530 - 1822)

O termo colônia é de origem latina “colonia”, que significa “um lugar para a agricultura”. O seu objetivo pode ser comparado ao expansionismo, que é a prática de uma nação acrescentar mais territórios ao que ela já possui.

Este período começou quando o governo português enviou ao Brasil a primeira expedição colonizadora chefiada por Martim Afonso de Souza. Em 1532, ele fundou o primeiro núcleo de povoamento, a Vila de São Vicente, no litoral do atual estado de São Paulo, além da implantação e expansão da economia açucareira baseada no sistema de plantation.


Teoricamente, o fim do período colonial foi 1815, quando o então Estado do Brasil tornou-se Reino de Portugal, Brasil e Algarves. Porém, de fato, o Brasil só deixa de ser um anexo a Portugal em 1822 com a declaração de independência.


Avaliação sobre esse assunto

https://forms.gle/tjmrQEvij3WoSwaR7


Próxima aula

Escravidão e resistência indígenas

sábado, 25 de novembro de 2023

O incrível exército de Brancaleone - filme completo

O incrível exército de Brancaleone - filme completo


O incrível exército de Brancaleone

https://www.youtube.com/watch?v=lCzH0LMRs98&t=32s


Na Itália do século 11, o maltrapilho Brancaleone forma um exército de mortos de fome e parte em direção a terras a que julga ter direito. Percorrendo a Europa medieval em um pangaré, ele se depara com a peste negra, com bruxas e bárbaros.

O Incrível Exército de Brancaleone é uma comédia clássica do cinema italiano, cuja história se passa na Europa medieval, na época das Cruzadas e da peste negra. Brancaleone (Vittorio) é um cavaleiro medieval decadente, que recebe um inusitado convite de um bando de pobres aldeões e um simpático velhinho mercador: para tomar um feudo, cuja posse seria garantida por um pergaminho que foi roubado por um dos camponeses. Brancaleone, muito atrapalhado, decide fazer daqueles aldeões um exército. Então, inicia-se a aventura rumo ao distante feudo. No caminho, enfrentam uma série de perigos típicos da Idade Média, um mais engraçado e pitoresco que o outro.


Clique no link abaixo e veja o filme

Link 01 (DUBLADO)

https://www.youtube.com/watch?v=lCzH0LMRs98&t=32s


Link 02 (LEGENDADO)

https://www.youtube.com/watch?v=OR9koj7anvc


sexta-feira, 24 de novembro de 2023

quinta-feira, 23 de novembro de 2023

quarta-feira, 22 de novembro de 2023

Expansão do comércio e das cidades

A expansão do comércio e das cidades



Transformações na Europa cristã

Você viu que o comércio dos europeus ocidentais com o Oriente, através do Mar Mediterrâneo, diminuiu de forma acentuada desde o século III até os primeiros séculos da Idade Média. Apesar disso, a navegação comercial no Mediterrâneo continuou, mas com novos atores: os bizantinos e, a partir do século VIII, também os árabes muçulmanos.


O mesmo ocorreu com o comércio no interior da Europa. Ele reduziu drasticamente, mas nunca desapareceu. Porém, a partir do século X, várias transformações ocorridas na Europa medieval permitiram incrementar o comércio interno, que cresceu muito nos três séculos seguintes.


Algumas dessas transformações foram as inovações agrícolas. Por exemplo, o sistema trienal de cultivo e o arado charrua foram introduzidos nos campos da Alemanha, Países Baixos e norte da Europa, o que permitiu aumentar as colheitas e produzir mais alimentos para a população.


Quando essas mudanças se disseminaram pelas propriedades rurais do centro e do sul da Europa, entre os séculos XI e XIII, as crises de fome tornaram-se menos frequentes e as epidemias diminuíram. O resultado foi a elevação da expectativa de vida e, consequentemente, o crescimento populacional.


Segundo o historiador Hilário Franco Jr., entre o século XI e princípio do XIV, a população da Inglaterra e de Gales teria crescido de 1,5 milhão para 3,75 milhões; a da França, de 6,5 milhões para 16 milhões; e a da Espanha, de 4 milhões para 7,5 milhões de habitantes.


Com as novas técnicas agrícolas e o aumento da população, a quantidade de trabalhadores nos campos passou a ser maior do que era necessário para o cultivo. Muitas pessoas então migraram em busca de novas terras ou se deslocaram para as cidades, onde assumiam as funções de artesãos, comerciantes e banqueiros, por exemplo. E, à medida que a população urbana crescia, aumentava também a procura por alimentos e por outros produtos para o consumo.



Mercadores na feira de Lendit, ilustração publicada no manuscrito Grandes crônicas da França, século XIV.


A expansão do comércio e das cidades

O comércio que começou a crescer na Europa por volta do século X tinha dois centros principais: o eixo do Mediterrâneo, que se estendia até o Mar Egeu e o Mar Negro e era controlado pelas cidades italianas, e o eixo nórdico, situado entre o Canal da Mancha e o Mar Báltico, dominado principalmente por mercadores flamengos.



Rotas comerciais


O principal comércio que interligava os dois eixos era o têxtil. A lã bruta era comercializada em feiras da Inglaterra e manufaturada em Flandres. De lá, os tecidos eram vendidos por comerciantes flamengos na Alemanha, na Rússia e no sul da Europa, de onde eram levados, por comerciantes italianos, até o Oriente. Com o tempo, as cidades italianas de Gênova e Florença aprimoraram as técnicas de acabamento e tingimento de tecidos, concorrendo com a produção de Flandres.


Ao longo desses dois grandes eixos comerciais havia mercados e feiras, locais onde vendedores e compradores negociavam diferentes produtos. Nos mercados os comerciantes se encontravam semanalmente para vender seus produtos. As feiras ofereciam maior quantidade e variedade de produtos e, por isso, eram realizadas normalmente uma vez ao ano. A principal delas era a de Champanhe, na França.



Detalhe de miniatura representando mercado na cidade de Praga, século XV.


O crescimento urbano

A expansão das cidades na Europa ocorreu concomitantemente à expansão do comércio. Por isso, muitos dos centros urbanos que foram fundados ou cresceram no período tinham ligações com as rotas de comércio de maior fluxo de pessoas e de produtos.


Nas antigas cidades, os sinais mais evidentes dessa mudança eram as novas habitações que surgiam em torno das muralhas. Essas aglomerações receberam nomes diferentes, e o que prevaleceu foi burgos. Os habitantes dos burgos eram chamados burgueses.


As cidades obtinham uma carta de franquia que as liberava da cobrança de direitos senhoriais, como taxações sobre o mercado e o trânsito de pessoas e de mercadorias, e tinham privilégios que lhes permitiam manter governo, justiça e milícias autônomas.


Os órgãos administrativos das cidades eram dominados pelas famílias mais ricas e influentes, tanto da aristocracia tradicional quanto da elite urbana burguesa. Essas facções da elite lutavam com frequência entre si, mas em geral o poder dos senhores feudais prevalecia sobre o poder dos burgueses.


Não se pode comparar, no entanto, a grande cidade medieval com as metrópoles atuais. Naquele período, o campo predominava em relação à cidade: não era incomum, por exemplo, encontrar no interior das muralhas urbanas áreas de cultivo e de criação de animais.


As corporações de ofício

O crescimento da população urbana foi acompanhado do incremento da produção artesanal. Isso porque o aumento da procura por diversos produtos significou, para muitos trabalhadores, a oportunidade de exercer um ofício que lhes permitisse sobreviver.


Os diferentes ofícios do artesão não tinham o mesmo reconhecimento social. Enquanto alguns desfrutavam de grande prestígio, como os ofícios de ourives e de ferreiro, outros eram menosprezados, como o de carniceiro e de peleiro, por envolver contato com sangue e sujeira.


Nas cidades, os artesãos se organizavam muitas vezes em corporações de ofício, associações que controlavam a qualidade e o preço dos produtos e protegiam os artesãos da concorrência.


Cada oficina era comandada por um mestre de ofício. Ele administrava o trabalho dos companheiros e dos aprendizes. Os primeiros eram trabalhadores especializados, que já tinham concluído a aprendizagem do ofício. Eles trabalhavam em troca de um salário, que podia ser pago em dinheiro ou na forma de abrigo, vestuário e alimentação. Os aprendizes iniciavam o ofício entre 10 e 12 anos de idade. Escolhidos entre os familiares do mestre, esses jovens em geral não recebiam salário, apenas abrigo e alimentação.



As profissões, ilustração de Cristoforo de Predis, século XV.


Novos personagens das cidades

Nas cidades, a leitura e a escrita passaram a ter grande importância, tanto para as famílias de médios e ricos burgueses quanto para as de artesãos. A leitura permitia controlar os negócios com mais eficiência, fazer contas e administrar os bens da família.


Muitas escolas clericais foram fundadas a partir do século XII nas cidades. Nelas os alunos aprendiam canto, leitura, escrita, aritmética, religião e latim. As famílias ricas pagavam uma quantia para manter as escolas e remunerar os mestres. As crianças pobres que viviam sob os cuidados da Igreja estudavam gratuitamente.


As primeiras universidades do Ocidente, fundadas no século XI, ofereciam aos jovens maiores de 16 anos uma vida de mais liberdade em relação às famílias. Nas cidades, os estudantes, todos do sexo masculino, instalavam-se em alojamentos coletivos ou em pensões.


A disciplina nas universidades era severa. Castigos físicos, como a aplicação de palmatórias ou chibatadas, eram comuns. Alguns estudantes abandonavam o curso e escolhiam a vida das tabernas, local onde se divertiam bebendo vinho. Já os mais letrados se dedicavam também à música e à poesia. Eram os chamados goliardos.



Um professor e seus alunos, miniatura de uma edição popular da obra Nosso Pai, de Zucchero Bencivenni, século XIV.


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República Velha (1889 - 1930) República de Espada (1889 - 1894) e República do Café com Leite (1894 - 1930)

A República Velha (1889-1930): Das Espadas ao Café com Leite O que é uma República?  República, do latim "res publica"...