domingo, 10 de setembro de 2023

Escravidão africana no Brasil

A escravidão africana no Brasil 


Escravos e escravizados no Brasil colônia. 

Os africanos trazidos para o Brasil

O que significa o termo “cultura afro-brasileira”? Que expressões dessa cultura foram criadas?

A partir do século XVI, milhões de africanos escravizados foram trazidos à força para o Brasil. Eles pertenciam a uma variedade de povos, que, no século XIX, foi classificada em dois grandes grupos linguísticos da família nigero-congolesa: banto e iorubá. Esses povos vieram de regiões onde hoje se localizam Nigéria, Costa do Marfim, Camarões, Angola, Congo, Tanzânia, Quênia, Moçambique, África do Sul, entre outros países africanos da atualidade.

Uma vez estabelecidos no Brasil, esses povos entraram em contato com indígenas e europeus que aqui viviam, construindo, juntos, uma cultura afro-brasileira. Assim, quando vamos a uma festa de Congada, assistimos a uma apresentação de capoeira, apreciamos um samba ou um maxixe, comemos um acarajé ou uma deliciosa canjica ou participamos de uma cerimônia do candomblé, por exemplo, estamos vivenciando expressões da cultura afro-brasileira.

O resultado desse fluxo migratório forçado de africanos escravizados está presente hoje na composição demográfica do nosso país. O Brasil tem a segunda maior população negra do mundo, inferior apenas à da Nigéria, na África. Segundo dados do Censo 2010, cerca de 97 milhões de brasileiros são pretos ou pardos. Por isso, estudar a história desses povos também é essencial para compreendermos nossa própria história.

 O tráfico de escravizados para o Brasil (séculos XVI-XIX) 


Fontes: CAMPOS, Flavio de; DOLHNIKOFF, Miriam. Atlas: história do Brasil. São Paulo: Scipione, 1993. p. 9; VICENTINO, Cláudio. Atlas histórico: geral e Brasil. São Paulo: Scipione, 2011. p. 48, 67 e 92. 

Os iorubás e seus reinos

Os iorubás constituem um grande grupo étnico-linguístico da África Ocidental, representando cerca de 20% da população da atual Nigéria e parte da população do Togo, do Benin e de Serra Leoa. Fora da África, a cultura iorubá tem forte presença no Brasil e em Cuba.

A origem dos reinos iorubás, também chamados de nagôs, ainda é incerta. Há indícios arqueológicos de que eles floresceram ao sul do Rio Níger por volta do século IX, numa antiga população que tinha como centro a cidade de Ifé (que significa “o que é vasto”).

Os reinos iorubás estavam organizados em cidades-Estado independentes que mantinham relações comerciais entre si. Acredita-se que a figura do rei nas sociedades iorubás tenha surgido em Ifé, que nessa cidade era chamado Oni.

A cidade de Ifé era considerada sagrada para os iorubás. Ela servia de referência política para os outros reinos iorubás e funcionava como entreposto do comércio caravaneiro na África. Os mercadores paravam na cidade para descansar, reabastecer as caravanas e negociar produtos, como sal, contas de pedra, dendê, pimenta e escravizados.


Tigela de oferendas em madeira pintada, estatueta iorubá da região da Nigéria, século XX. Estatuetas feitas de madeira, terracota ou metal são o grande destaque da arte iorubá.

No século XVI, com a chegada dos europeus, Ifé entrou em declínio, enquanto outras cidades iorubás mais próximas do litoral ascenderam, favorecidas pelo comércio de ouro e escravizados com os estrangeiros.


Devotos do candomblé no terreiro Ilê Axé Alá Obatalandê, no município de Lauro de Freitas (BA), em 2014. Nas crenças iorubás, os orixás são entidades intermediárias entre o ser supremo, Olodumare, e os seres humanos. Trazido ao Brasil pelos negros iorubás, o culto aos orixás misturou-se aos cultos e tradições aqui encontrados e deu origem aos chamados cultos afro-brasileiros, como o candomblé.

Os bantos e o Reino do Congo

O termo “banto” designa cerca de quatrocentos grupos étnicos africanos cujas línguas têm uma origem comum. Os ancestrais desses povos viviam na fronteira dos atuais Nigéria e Camarões por volta de 3 a 4 mil anos atrás. No século XII, eles já haviam ocupado áreas da África Central até o sul e o leste do continente.

O Reino do Congo, um dos mais importantes reinos bantos, surgiu por volta dos séculos XIII e XIV em terras da África Centro-Ocidental. O reino estava dividido em províncias e pequenas aldeias e era controlado por um rei, chamado de mani congo (“espírito superior”).

A capital do Reino do Congo era M’Banza Congo. A cidade era uma praça forte, cercada de muralhas, e também um grande centro comercial. O comércio era a principal atividade econômica dos congoleses. Eles mantinham contatos comerciais com os cuxitas, os nilotas e mercadores árabes vindos do norte.

No século XV, após os primeiros contatos com os portugueses, o mani congo Nkuwu Nzinga se converteu ao catolicismo e foi batizado com o nome de D. João. A capital do reino passou a se chamar São Salvador do Congo. Iniciava-se, dessa forma, uma longa parceria comercial e política entre portugueses e congoleses, que tinha como centro o comércio de pessoas escravizadas.


Gravura representando Nkuwu Nzinga, mani congo batizado por missionários portugueses como D. João em 1491.


À medida que os portugueses garantiam o fornecimento de armamentos ao Reino do Congo, este se impunha sobre os povos vizinhos em sucessivas vitórias nas guerras locais. Essa situação também contribuiu para o aumento da captura de escravizados para o tráfico atlântico. Para se ter uma ideia, o número de cativos embarcados nos navios negreiros portugueses, somente no porto de Mpinda, cresceu de 4 a 5 mil, em 1540, para cerca de 6 a 7 mil, em 1548.Os portugueses eram beneficiários diretos dos lucros dessa atividade comercial.



Vista de ruínas no centro histórico de M’Banza Congo, em Angola. Foto de 2019. A antiga capital do Reino do Congo foi declarada Patrimônio Mundial da Humanidade pela Unesco.

Escravidão e resistência no Brasil

Em mais de três séculos de tráfico negreiro, cerca de 10,5 milhões de africanos conseguiram sobreviver às viagens e desembarcar na América. Desse total, quase 5 milhões entraram no Brasil. Comercializados nas praças mercantis de Salvador, Olinda, Rio de Janeiro, entre outras, os africanos foram encaminhados ao trabalho nas lavouras, nas minas, nos serviços domésticos e nas atividades urbanas.

Os castigos físicos faziam parte do cotidiano dos escravizados africanos no Brasil, tanto no campo quanto nas cidades. Em geral, a violência física era aplicada para punir os desobedientes ou que apresentavam baixa produtividade, ao mesmo tempo que servia de exemplo aos demais. Os principais instrumentos de tortura utilizados pelos donos e capatazes eram chicotes, algemas, correntes e palmatórias. Para fugir dos castigos, os escravizados tinham de obedecer às regras impostas pela sociedade escravista.

Diante dessas condições, os africanos escravizados expressaram diferentes formas de resistência. Alguns utilizaram métodos pacíficos, por exemplo, evitando ter filhos ou entrando em um estado de profunda melancolia, chamado banzo, que muitas vezes os levava à morte. Outros reagiram de forma violenta, por exemplo, assassinando feitores, capitães do mato e familiares dos senhores. 

Outra forma de resistência era a fuga para cidades distantes, matas ou comunidades de escravizados fugidos, chamadas de quilombos. Porém, fugir dos domínios do senhor era uma empreitada difícil. Assim que a ausência de um cativo era notada, os capitães do mato saíam para capturá-lo e devolvê-lo ao proprietário.

A violência da escravidão explica por que as taxas de mortalidade de africanos eram elevadas no Brasil. Por esse motivo, o tráfico negreiro era uma atividade fundamental na reposição da mão de obra.


Representação atual de quilombo na América portuguesa.

Uma nova identidade cultural

O trabalho escravo foi amplamente empregado na produção açucareira das áreas litorâneas do Nordeste, principalmente entre a segunda metade do século XVI e o século XVII; nas minas de ouro e diamantes em Minas Gerais, no século XVIII; nas lavouras de café do Vale do Paraíba Fluminense e Paulista, no século XIX; na produção de gêneros voltados ao mercado interno; e no comércio e em vários outros ofícios nas cidades de Salvador, Recife, Rio de Janeiro e outros centros urbanos do Brasil.

Em toda parte, os africanos escravizados também manifestaram resistência cultural, procurando preservar suas tradições e os laços culturais que os uniam à terra natal. Nesse aspecto, as senzalas e os quilombos funcionaram como espaços de convívio social, trocas e criação de novas identidades, construídas a partir das experiências vividas fora da África.

Estima-se que 35 mil viagens de navios negreiros tenham sido feitas entre 1501, data da primeira leva, e 1866, registro do último embarque de cativos na África. Desse total, cerca de 15 a 20 mil viagens tiveram como destino o Brasil. Ao desembarcar nesse território, os africanos escravizados trouxeram no corpo as marcas de sua diversidade étnica e o legado estético da terra de origem: dentes limados, cabelos trançados, tatuagens, marcas de escarificação ritual etc.

Embora vindos de diferentes regiões da África e falando muitas vezes línguas distintas, os africanos puderam, nos espaços de trabalho e convívio no Brasil, praticar o culto aos ancestrais, relembrar costumes e cerimônias religiosas e criar uma cultura que tinha muito do que veio da África, mas também muito do que encontraram na América, e mais ainda do que construíram de novo em terras transatlânticas.

Nesse processo, o ambiente das casas-grandes também foi transformado pela cultura afro-brasileira que então se formava. Como você viu no OED da abertura, o português falado no Brasil, por exemplo, ficou marcado pelas palavras, pela pronúncia e pela musicalidade das línguas da família nigero-congolesa. Na Bahia, local em que houve grande presença africana, desenvolveu-se uma culinária à base de leite de coco, pimenta e azeite de dendê, e os trajes e adereços associados aos orixás das crenças iorubás, vestidos então pelos escravizados, são utilizados até hoje pelas baianas que vendem acarajé e pelos praticantes de candomblé.


Mulheres negras da Bahia. Foto de Alberto Henschel, c. 1870.

Religiosidade e resistência

Até o século XVIII, as religiões de origem africana eram frequentemente chamadas de calundu, termo de origem banta que designa todo tipo de ritual religioso que envolve danças coletivas e músicas, acompanhadas por atabaques, invocação de espíritos, adivinhações, magias e possessão.

As religiões africanas eram vistas pelos cristãos como feitiçaria. Assim, para evitar a perseguição da Igreja Católica, os africanos passaram a associar suas entidades religiosas a santos católicos, criando um sincretismo religioso que preservava, ao menos em parte, suas tradições.

Muitos antropólogos condenam o uso do termo “sincretismo” por considerá-lo sinônimo de submissão do colonizado à cultura do colonizador. Para alguns pesquisadores, no entanto, o sincretismo é um elemento essencial de todas as religiões, no passado e no presente. Ele se manifesta na religiosidade popular, nos conhecimentos que os escravizados trouxeram da África e que seus descendentes adaptaram no Brasil.
 

“Embora alguns não admitam, todas as religiões são sincréticas, pois representam o resultado de grandes sínteses integrando elementos de várias procedências que formam um novo todo. [...] o sincretismo está presente tanto na umbanda e em outras tradições religiosas africanas, quanto no catolicismo primitivo ou atual, popular ou erudito, como em qualquer religião.”

FERRETTI, Sérgio E. Sincretismo afro-brasileiro e resistência cultural. Horizontes Antropológicos. Porto Alegre, ano 4, n. 8, p. 183, jun. 1998.


Celebração de Congada em Ouro Preto (MG), em 2015. Nessa festa popular afro-brasileira, as irmandades de negros encenavam a coroação do rei do Congo e da rainha Njinga, embalados por músicas e danças. Celebrada em diversas partes do Brasil, a Congada adquiriu características de cada local do país.


O movimento negro no Brasil


Abdias do Nascimento (1914-2011), sociólogo e ativista do movimento negro no Brasil, cumpriu um papel fundamental para a reflexão e a ação dos afrodescendentes na sociedade brasileira. Foi diretor-fundador do Teatro Experimental do Negro, dirigiu o jornal Quilombo entre 1948 e 1951 e contribuiu para a organização do Primeiro Congresso do Negro Brasileiro, em 1950. 

Como deputado federal e senador, dedicou sua atividade pública à luta contra o racismo e à criação de políticas afirmativas para a população afrodescendente. 



Abdias do Nascimento é homenageado na cerimônia de abertura da II Conferência de Intelectuais da África e da Diáspora. Salvador, Bahia, julho de 2006.


Capoeira: resistência e sociabilidade

A roda de capoeira é uma manifestação cultural afro-brasileira que desde 2014 é reconhecida pela Unesco como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Mistura de dança, luta e jogo, a capoeira é praticada por crianças, jovens e adultos em todo o Brasil, com variações regionais.

Há muitas hipóteses sobre a origem da capoeira, mas nenhuma certeza. Os primeiros registros dessa prática datam do início do século XIX na cidade do Rio de Janeiro. Documentos posteriores sugerem a presença de capoeiristas em Salvador, Recife, Belém e São Luís. Era basicamente uma técnica de combate, praticada principalmente por negros libertos e escravizados. Associada à vadiagem e aos negros, a capoeira foi perseguida e reprimida pelas autoridades, e apenas nos anos 1930 se tornou reconhecida pelo Estado brasileiro.
 

“A capoeira podia ser praticada como luta, dança, brincadeira ou passatempo. Perigosa, representava uma ameaça não apenas por causa dos constantes enfrentamentos entre grupos de capoeiras e forças de repressão, mas por ser uma afronta à população, uma vez que fazia das ruas da cidade palco para que uma população escrava […] exibisse abertamente e com desenvoltura a sua presença e capacidade de se divertir, brigar e resistir.”

GOUVÊA, Viviane. Quilombos e revoltas de escravos. O Arquivo Nacional e a História Luso-Brasileira, 24 jan. 2017. Disponível em <http://mod.lk/qqujs>. Acesso em 9 mar. 2020.


Jogar capoeira ou Dança da guerra, pintura de Johann Moritz Rugendas, 1835.


Aula 01 - Escravidão africana no Brasil - Povo iorubá.



Aula 02 - Escravidão africana no Brasil - O povo banto.




Aula 03 - Escravidão e resistência no Brasil colonial 


Próxima aula

Escravidão no Caribe e nos Estados Unidos

sexta-feira, 8 de setembro de 2023

Tráfico do Atlântico (Tráfico negreiro entre África x Américas)

Tráfico negreiro do Atlântico - comércio de escravos entre África e Américas.



Clique no link abaixo e veja o vídeo sobre a grandiosa história africana ao longo da antiguidade e idade média.


https://youtu.be/hSDhPrMz7IQ?si=sdVcnMYsgMp4RUcE


O tráfico transatlântico



Africanos em um navio negreiro.


Quais foram os principais resultados do tráfico transatlântico?



Dançarinos de conga se apresentam nas ruas de Havana, em Cuba. Foto de 2016. 


A diáspora africana



Significado (definição) palavra diáspora.


Até recentemente, o termo diáspora era aplicado para nomear a dispersão forçada dos judeus pelo mundo após a destruição de Jerusalém pelos romanos, no século I d.C. Sabemos, porém, que processos semelhantes de dispersão territorial ocorreram com outros povos. Por isso, desde o final do século XX, muitos livros e artigos têm feito referência à diáspora africana, o movimento de migração forçada mais intenso de que se tem notícia.



Diáspora 


O deslocamento territorial de milhões de africanos através do Oceano Atlântico foi motivado pelos lucros obtidos com o tráfico negreiro e com a exploração do trabalho escravo na América. 



Diáspora africana 


Escravidão promovida por europeus que focavam nos altíssimos lucros obtidos pelo tráfico.


Praticado por quase quatro séculos, o tráfico de escravizados teve como maior consequência para o continente africano a perda demográfica. Na Europa, o seu principal resultado foi o acúmulo de grandes lucros. Na América, para onde a maior parte dos africanos escravizados foi levada, o tráfico atlântico e a escravidão produziram sofrimento, mortes e um legado de preconceito difícil de superar. Porém, eles também promoveram encontros e trocas entre diversas sociedades e culturas, ocorridos tanto nos navios negreiros como nos espaços que os sujeitos escravizados encontraram fora da África. 


Nas terras ligadas pelo Atlântico, os africanos escravizados estabeleceram novos vínculos afetivos e familiares, construindo, na relação com outros povos, expressões culturais afro-americanas. Seus descendentes, em razão das barreiras étnico-sociais geradas pela escravidão, hoje lutam para se inserir como cidadãos plenos na sociedade.


“Para pensar a diáspora africana é preciso destacar as regiões portuárias. Tais regiões marcaram a entrada desses indivíduos em novos mundos, e por serem locais de chegada, eram também marcados pelo contato e […] pela diversidade cultural, étnica e social. [...] 


Um mundo de trocas e sociabilidade se construiu a partir da experiência num novo local. Formas de ver o mundo, domínio de diferentes tecnologias, ideias e crenças são exemplos destas trocas. Africanos de todas as partes do continente precisaram construir novas formas de viver a vida em terras (hoje) brasileiras. 


Assim, a diáspora não é apenas sinônimo da imigração à força, mas também [...] a construção de novas formas de ser, agir e pensar no mundo. Os castigos físicos e o sofrimento fizeram parte da vida de homens e mulheres escravizados. Mas as lutas diárias, os novos elos afetivos, os vínculos familiares também.” 


ANDRADE, Ana Luíza Mello Santiago. Diáspora africana. Geledés, 14 fev. 2017. Disponível em <http://mod.lk/67yhg>. Acesso em 16 mar. 2020. 



Rancho na região da serra do Caraça, gravura de Spix & Martius, 1817-1820.


Escravo ou escravizado?


Segundo alguns pesquisadores, do ponto de vista semântico, o termo “escravo” naturaliza a condição do cativo, como alguém que se acomodou a uma condição estabelecida desde sempre. Por isso, o termo mais correto seria “escravizado”. Ele permite perceber que a pessoa cativa estava naquela condição, criada e não natural, por decisão do opressor.


A expansão portuguesa na África


Os portugueses foram pioneiros no comércio de pessoas escravizadas da África para a América. Em 1443, a Coroa portuguesa criou, no Arquipélago de Arguim, a primeira feitoria em terras africanas. O entreposto de Arguim seria utilizado para a obtenção de ouro, goma arábica e escravizados, além de servir de base para a expansão portuguesa em direção ao Atlântico Sul.


Porém, o grande impulso ao tráfico veio com a colonização da América, a partir do século XVI. A crescente demanda de mão de obra estimulou a criação de rotas diretas entre a África e a América, transformando o tráfico negreiro em um negócio transatlântico.


No século XVI, com o apoio de guerreiros imbangalas, os portugueses derrotaram reinos mais ao sul do continente africano, que resistiam à sua presença, e fundaram as colônias de Luanda e Benguela. Aos poucos, formou-se uma nova sociedade colonial portuguesa, voltada à captura e venda de escravizados.


À medida que cresciam os lucros com o comércio negreiro, as guerras entre os reinos africanos passaram a ser motivadas cada vez mais pelo interesse em adquirir escravizados e comercializá-los com os europeus. Dessa maneira, a solução para o fornecimento de mão de obra na América tornou-se um lucrativo negócio, tanto para os europeus quanto para os chefes e líderes africanos.



Navio negreiro, gravura colorizada de Johann Moritz Rugendas, 1835.


O funcionamento do tráfico negreiro


Clique no link abaixo e veja o vídeo sobre o tráfico negreiro

https://youtu.be/D8OYVuwquCs?si=jG1U_8TDbPwB1F_E


O tráfico transatlântico de escravizados foi responsável pelo maior deslocamento forçado de pessoas, a longa distância, da história. Das primeiras viagens realizadas no início do século XVI até 1866, ano da partida do último navio negreiro para a América, cerca de 12,5 milhões de africanos foram escravizados e obrigados a embarcar, em sua maioria, em direção às colônias americanas do outro lado do Oceano Atlântico. 


As propriedades monocultoras de cana-de-açúcar na América, conhecidas como plantations, foram fundamentais para a expansão do tráfico negreiro, pois 80% de todos os escravizados que saíram da África entre os séculos XVI e XIX foram levados para trabalhar nessas áreas de produção de açúcar. Entre os que desembarcaram em portos americanos, 95% foram levados para o Caribe e a América do Sul.


O tráfico era lucrativo para todos os agentes nele envolvidos. Na maior parte da costa africana, o comércio entre europeus, colonos americanos e traficantes locais se assentava em praças mercantis, portos e fortalezas. Os navios negreiros partiam de vinte portos principais, de onde quase três quartos de todos os cativos retirados da África foram transportados em naus para diversas localidades (veja o mapa abaixo).


Os principais portos de embarque de pessoas escravizadas se localizavam na África Ocidental. Ao longo de quase quatro séculos de tráfico negreiro, a maior parte dos cativos partiu da região centro-ocidental. Na porção oriental da costa africana, Madagascar e Moçambique destacaram-se a partir do final do século XVIII até meados do século XIX, período em que o tráfico começou a declinar e as rotas convencionais foram proibidas.


Visão geral do tráfico de escravizados (1501-1866)




Fonte: Slave Voyages: The Trans-Atlantic Slave Trade Database. Disponível em <http://mod.lk/zon3v>. Acesso em 9 mar. 2020.


O discurso que justificava a escravidão


O volume do tráfico de africanos escravizados superou em muito o comércio de cativos na Antiguidade. Diferentemente do escravismo antigo, a escravidão moderna alcançou uma dimensão intercontinental, criando sociedades escravistas em várias partes da América.


Os reinos europeus que comerciavam escravizados no Atlântico criaram leis para regulamentar o tráfico e a escravidão, definindo, por exemplo, até onde ia o poder do senhor sobre seus cativos, quais eram as condições de compra e venda, que castigos eram toleráveis etc. Procuravam também determinar em quais situações os escravizados poderiam alcançar a alforria.


Para legitimar a prática da escravidão do ponto de vista moral e jurídico, os europeus procuravam justificativas nas ideias de pensadores da Igreja, nos textos de Aristóteles e no direito romano. Assim, eles criaram um discurso que tratava um ato cruel e hediondo como uma prática justa, natural e necessária (leia o boxe no final desta página).




Filhos de Caim


Um dos discursos criados pelos europeus para justificar a escravidão consistia em associar os negros aos descendentes de Caim, personagem bíblico que assassinou seu irmão Abel e por isso foi amaldiçoado por Deus.

“Os africanos seriam os descendentes de Caim, e, portanto, trazendo ainda na carne o sinal da maldição divina imposta ao primeiro homicida, segundo a narrativa bíblica. [...] Na tradição popular os negros passaram a ser considerados como raça maldita de Caim, sendo a negritude de sua pele um sinal imposto pelo próprio Deus.”

AZZI, Riolando. In: OLIVIERA, Cleiton. A prole de Caim e os descendentes de Cam. Dissertação de Mestrado em História apresentada à Unifal, 2018. p. 32.

ERIC LAFFORGUE/CORBIS/GETTY IMAGES - COLEÇÃO PARTICULAR



Representação em baixo-relevo de um religioso católico pregando para africanos em Angola, s/d.


Os agentes do tráfico


No século XVI e na primeira metade do século XVII, portugueses e espanhóis dominaram o tráfico de africanos escravizados. A partir da expansão da economia açucareira no Caribe, a competição aumentou com a participação de franceses, ingleses e holandeses e, em menor escala, de dinamarqueses, suecos e alemães.

O século XVIII foi marcado pelo domínio dos ingleses no Atlântico Norte e de comerciantes portugueses e luso-brasileiros no Atlântico Sul. Nos países mais atuantes no tráfico negreiro foram criadas instituições que regulamentavam o funcionamento dessa atividade, estabeleciam impostos e tarifas e disputavam o monopólio do comércio de escravizados no Atlântico.

No Atlântico, essa grande rede de comércio de pessoas era composta pela elite mercantil, comerciantes, capitães de navios, marinheiros e armadores, financiados por banqueiros europeus. No interior da África, esses agentes do tráfico dependiam de guias, intérpretes, carregadores de mercadorias, moradores e funcionários reais que se estabeleciam nas proximidades dos portos e nas colônias. Também havia traficantes locais, que poderiam ser até mesmo ex-escravizados e europeus estabelecidos na África.

Os soberanos e chefes africanos também participavam do tráfico, pois eram eles que monopolizavam o fornecimento de cativos. Esses líderes locais passaram a promover guerras e expedições contra vilas, aldeias e reinos rivais para aprisionar e escravizar pessoas.

Em troca dos cativos, os europeus ofereciam mercadorias apreciadas pelas autoridades africanas, como cauris e zimbos (conchas que circulavam como moedas); objetos de ferro e cobre; tecidos finos do Oriente; tabaco; cavalos; armas de fogo; vinho; rum e cachaça. Os europeus negociavam os africanos escravizados no Caribe, nas treze colônias inglesas e na América do Sul e depois partiam para a Europa levando açúcar, tabaco e rum. Esse circuito ficou conhecido como comércio triangular.


Gravura colorizada do século XIX que representa africanos cativos sendo conduzidos, em comboio, para os postos de venda de escravizados na costa do continente.


A dimensão humana da travessia atlântica


Por trás dos números, dos mapas e das tabelas relacionados ao tráfico negreiro, estão as pessoas que foram vítimas da crueldade desse comércio. O terror, o medo e a tortura eram as características mais evidentes da escravização e do tráfico negreiro.


Dos cerca de 12,5 milhões de africanos que embarcaram nos navios com destino à América, quase 2 milhões não sobreviveram. Sucumbiram em razão das precárias condições da viagem, que durava em média quarenta dias: embarcações lotadas, disseminação de doenças como tuberculose e disenteria, alimentos estragados e sujeira. Também foram vítimas de castigos físicos, privações e violência sexual.


Nos navios, os africanos resistiam com frequência, promovendo motins na tentativa de se libertar. Em um a cada dez navios ocorreu algum tipo de rebelião de escravizados ou ataque na costa africana. As fugas, as revoltas armadas e a formação de comunidades de fugitivos são alguns exemplos da resistência à escravização que acontecia ainda no interior do continente africano.


As pressões dos agentes envolvidos na economia escravista para aumentar a cada dia o fornecimento de escravizados levaram as elites africanas a criar e incrementar meios para a obtenção de cativos, como o sequestro, a captura ilegal de livres e libertos e a escravização de pessoas acusadas de algum crime. Os resultados desse processo foram o despovoamento de regiões inteiras, a instabilidade política de reinos, vilas e aldeias e a desagregação social das populações locais.



O motim no Amistad, pintura mural de Hale Woodruff, 1938. A cena representa a rebelião de africanos escravizados ocorrida em 1838 no navio Amistad. 


A escravidão atlântica 

http://mod.lk/cf2h7006


Fotos quadro


Abaixo, foto do quadro aula 01 e 02


Aula01


Foto da aula Tráfico do Atlântico (tráfico negreiro entre a África e o continente americano)

Abaixo, foto do quadro aula 02 


Foto aula 02 Tráfico Negreiro do Atlântico.


Próxima aula

Escravidão africana no Brasil


quarta-feira, 6 de setembro de 2023

Mapão Nordeste açucareiro (sociedade e economia açucareira)

Mapão (estudos orientados) Nordeste açucareiro (sociedade e economia açucareira)


O engenho e seu funcionamento - Nordeste açucareiro (sociedade e economia do açúcar)

Avaliação baseada no conteúdo 

https://historiaecio.blogspot.com/2023/08/nordeste-acucareiro.html

- Após o ciclo do pau-brasil, qual produto tomou importância na colonização de exploração da América portuguesa?

- Sobre o cultivo da cana-de-açúcar... Tivemos  duas capitanias foram favorecidas pela maior proximidade da metrópole, pela disponibilidade de terras aráveis e pela existência de rios navegáveis, que facilitavam o transporte do açúcar. Estamos falando sobre as capitanias de:

- Durante os dois primeiros séculos de colonização, o açúcar se tornou o produto mais lucrativo e o principal negócio para a Coroa e para os comerciantes portugueses. Por que isso acontecia?

- O engenho colonial era composto por:

- Ao longo do processo produtivo do açúcar, defina:

1 - Setor de moagem       2 - Setor de cozimento        3 - Setor de purgar 

- Poucos fazendeiros contavam com recursos próprios para montar uma plantação de cana e arcar com os custos de instalação dos equipamentos utilizados para a fabricação do açúcar. Como os fazendeiros conseguiam empréstimos para cultivar a cana-de-açúcar e os produtos derivados?

- O açúcar produzido no Brasil fazia parte de uma extensa rede de comércio internacional. Quem lucrava com essa extensa rede de produção e comércio?

- Em quais regiões das capitanias de Pernambuco e Bahia ficavam os engenhos?

- Boa parte da mão de obra implantada no cultivo da cana-de-açúcar, a maioria dos trabalhadores no engenho eram:

- Quem eram os senhores de engenho? Fale um pouco sobre eles:

- Nem todo produtor tinha recursos para a instalação de um engenho. Os produtores de cana que não possuíam engenho eram chamados lavradores de cana. Eles se dividiam basicamente em duas categorias: os lavradores proprietários e os arrendatários. Quem eram os:

1 - Lavradores proprietários                     2 - Lavradores arrendatários 

- Todo proprietário de lavouras de cana-de-açúcar era um senhor de engenho?

Explique a principal diferença entre os lavradores proprietários e os lavradores arrendatários:

- A desigualdade racial existente no Brasil de hoje tem a sua origem na colonização de exploração portuguesa e na adoção da mão-de-obra escrava. Nos engenhos, quem era escravo? O que os escravos faziam?

- O engenho não era composta apenas de trabalhadores escravizados. Dentro deste contexto, quem eram os trabalhadores livres e assalariados do engenho?

- Defina:

1 – Feitor do eito          2 – Feitor da moenda           3 – Feitor-mor          4 – Mestre de açúcar

- Conceitue e informe semelhanças e diferenças entre:

1 - Casa-grande                                                          2 - Senzala

- Considerando o conceito do Antigo Sistema Colonial, o açúcar foi o produto escolhido por Portugal para dar início à colonização brasileira, em virtude de... Por que o açúcar incentivou o início da colonização da América portuguesa?

- O que é a plantation?

- O que é uma monocultura?

- Qual era o destino do açúcar produzido no nordeste brasileiro ao longo dos séculos XVI e XVII?
 
Link da aula



terça-feira, 5 de setembro de 2023

Revisão 3° ano Fascismo 3° bim. 2023

Revisão História prova 3° ano 3° bim. 2023 Fascismo e nazismo.

Avaliação baseada na aula:

https://historiaecio.blogspot.com/2022/12/a-ascensao-do-fascismo-na-italia.html


Símbolo fascista


Lema fascista


Principais tópicos que você precisa saber para a realização de uma boa avaliação sobre o fascismo:


- Em qual contexto histórico surgiu o fascismo na Itália e o nazismo na Alemanha?


- Definição de fascismo é:


- Quem foi Benito Mussolini e Adolf Hitler? Fale um pouco sobre cada um deles:


- As principais características do fascismo (informe pelos menos cinco características):


O que era o Fasci di Combattimento?


- Relação entre o regime fascista e os meios de comunicação. Como o fascismo usava a mídia para controlar e censurar?


- Qual era o objetivo dos governos fascistas ao usar a censura?


- Características econômicas defendidas pelos regimes fascistas europeus nas décadas de 1930 e 1940:


- O governo fascista na Itália sob Benito Mussolini foi caracterizado por:


- Como Mussolini chegou ao poder?


Como o fascismo usava a religiosidade?


- Como Adolf Hitler assumiu o poder na Alemanha?


- Qual relação entre os regimes totalitários (fascismo e nazismo) com o início da Segunda Grande Guerra Mundial?


- Por que o fascismo é considerado de direita?


Por que os empresários italianos, em sua maioria, apoiavam o fascismo?


- Qual é o lema do fascismo?


Como ditador (Duce), o que Mussolini fez nos primeiros anos de poder?


- Qual o problema do fascismo?



Liberação de armas para a população - formação de milícias armadas


Faça uma reflexão...

O fascismo e as suas características lembra algo que o Brasil possui atualmente?


Aula (material)

https://historiaecio.blogspot.com/2022/12/a-ascensao-do-fascismo-na-italia.html

domingo, 3 de setembro de 2023

Primeiro Reinado (1822 - 1831)

O Primeiro Reinado



Brasil Imperial (parte 01) - Primeiro Reinado (1822 - 1831)


Nem todos queriam a independência...


Que acontecimentos marcaram o governo de D. Pedro I no Brasil?


Após a independência, a resistência de algumas províncias ao rompimento com Portugal avançou para o confronto armado. Nas províncias do Pará, Maranhão, Piauí e Ceará, além de parte da Bahia e da Província Cisplatina, militares e altos funcionários portugueses não aceitaram a independência, aliando-se às Cortes de Lisboa.


No município de Campo Maior, no Piauí, por exemplo, ocorreu a Batalha do Jenipapo, em 13 de março de 1823. Na luta, piauienses, apoiados por maranhenses e cearenses favoráveis à independência, combateram as tropas portuguesas, comandadas pelo governador João José da Cunha Fidié, que desejavam manter as províncias do Norte e Nordeste fiéis a Portugal.


O movimento teve forte caráter popular. Estima-se que mais de 2 mil sertanejos, entre vaqueiros, artesãos, fazendeiros, roceiros, lavradores e até mesmo escravos, tenham participado do conflito. Eles armaram-se com instrumentos de trabalho, como foices e enxadas.


Apesar da resistência sertaneja, as tropas de Fidié venceram o conflito e fizeram cerca de 500 prisioneiros. Porém, após a batalha, um grupo de sertanejos invadiu o acampamento militar dos portugueses e apreendeu armamentos, munições e dinheiro. Além disso, muitos soldados desertaram. Assim, Fidié se viu obrigado a sair do Piauí, seguindo para o Maranhão, onde foi preso e mandado de volta a Portugal.


Na Bahia, a guerra contra as tropas portuguesas contou com o apoio de oficiais ingleses. O conflito terminou em 2 de julho de 1823, com a vitória das forças inglesas e imperiais.



Ilustração atual representando a Batalha do Jenipapo, ocorrida em 1823.


Bahia: mulheres na luta pela independência


Na Bahia, a Festa da Independência é celebrada no dia 2 de julho, data em que todo o estado relembra a vitória sobre as tropas portuguesas, ocorrida em 1823. Os conflitos entre portugueses e brasileiros na Bahia começaram em fevereiro de 1822 com a chegada de um novo governador enviado pelas Cortes de Lisboa. No mesmo mês, ele ordenou a invasão do convento da Lapa, supostamente à procura de armas e rebeldes ali escondidos. A freira Joana Angélica tentou impedir a entrada dos soldados e foi morta a golpes de baionetas. Quem também se destacou foi Maria Quitéria. Nascida em uma família de militares, a jovem fugiu de casa, vestiu um uniforme militar e se passou por homem para integrar as forças voluntárias que lutavam contra os portugueses. Hoje é considerada, oficialmente, a primeira mulher a integrar uma unidade militar no Brasil. Maria Felipa de Oliveira, negra liberta e pescadora da Ilha de Itaparica, liderou voluntários em ações de apoio às tropas brasileiras: erguiam barricadas, vigiavam a praia e a chegada de embarcações inimigas e organizavam o envio de provisões para o interior. Em 2017, o nome de Maria Felipa foi acrescentado a uma lápide comemorativa em Itaparica ao lado de outros personagens que se destacaram nas lutas de independência da Bahia.



Ilustração atual representando Joana Angélica, Maria Felipa de Oliveira e Maria Quitéria.


A Assembleia Constituinte de 1823


Além dos conflitos internos, em 1823 também ocorreram eleições para a Assembleia Constituinte. Ela tinha por objetivo elaborar a primeira Constituição do Brasil, tarefa essencial na construção do novo Estado. Instalada em maio, a Assembleia reunia advogados, padres, funcionários públicos – civis e militares – e, principalmente, proprietários rurais.


Os constituintes estavam divididos em duas correntes distintas: os partidários do imperador, que defendiam um governo centralizado e forte, capaz de derrotar as tendências separatistas que se verificavam no começo do império, e os adversários do imperador, que propunham limites para a autoridade de D. Pedro I.


A proposta inicial da Constituição desagradou o imperador. Apesar de conservador, mantendo os interesses das elites que apoiaram D. Pedro na independência do Brasil, o projeto limitava os poderes do monarca, como o de dissolver a Câmara dos Deputados quando considerasse necessário.


Diante disso, em novembro de 1823, D. Pedro I enviou suas tropas à Assembleia Constituinte, pondo fim aos seus trabalhos. Esse acontecimento ficou conhecido como a Noite da Agonia. Dissolvida a Assembleia Constituinte, D. Pedro I encomendou a um grupo de pessoas de sua confiança um novo projeto constitucional.


RJTV - Noite da Agonia

Clique no link abaixo e veja o vídeo.

https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/rj1/video/historica-noite-da-agonia-completa-200-anos-12103210.ghtml



Coroação de D. Pedro I, pintura de Jean-Baptiste Debret, 1828.


A Constituição de 1824


Em 1824, D. Pedro I outorgou a primeira Constituição do Brasil, que conciliava os interesses da elite com o autoritarismo do imperador. Veja as principais resoluções da lei.


* O governo do Império do Brasil foi definido como uma monarquia hereditária, constitucional e representativa.

* Adotou-se o princípio da separação dos poderes, que foram divididos em Executivo, Legislativo, Judicial e Moderador. Este último era exclusivo do imperador e lhe garantia o direito de intervir nos demais poderes.

* Foi garantido o direito à propriedade de terras, escravos e demais bens adquiridos pelas elites durante o período colonial.

* O catolicismo foi adotado como religião oficial do império.

* Foi estabelecido o voto indireto e censitário. Os eleitores escolhiam, nas eleições primárias, o colégio encarregado de eleger os deputados. Além disso, exigia-se do cidadão uma renda mínima para poder votar ou candidatar-se à Câmara e ao Senado.

A nova lei também dividiu o território brasileiro em províncias, governadas por um presidente nomeado pelo imperador. Estabeleceu ainda o princípio da tolerância religiosa e a educação primária gratuita.


Negros e indígenas na Constituição


As elites que conduziam o novo país mantiveram os negros escravizados e os indígenas excluídos de seus planos políticos e sociais.


A Constituição de 1824 não fazia menção aos escravos, apenas aos ingênuos e libertos. Por exemplo, ao determinar quem era cidadão brasileiro, a lei declarava que os ingênuos e os libertos nascidos no Brasil eram cidadãos com direitos restritos. Com isso, os cativos nascidos na África que obtinham a alforria ficavam em condição vulnerável, suscetíveis a todo tipo de violência por parte dos antigos senhores e das autoridades imperiais.


Em relação aos indígenas, o estadista José Bonifácio apresentou à Assembleia Constituinte de 1823 uma proposta para integrá-los socialmente por meio da educação, do trabalho, dos casamentos mistos e do convívio com o homem branco. Entretanto, o projeto foi excluído da Constituição de 1824. Apenas com a Constituição de 1988, os indígenas conquistaram o direito à sua identidade étnica e às terras que tradicionalmente ocupam.



Mulher escravizada que trabalhou como ama de leite e babá, em Pernambuco. Foto de Alberto Henschel, 1874.


Museu Imperial


Disponível em <http://mod.lk/aLkgp>. Acesso em 2 jul. 2020.

O Museu Imperial, localizado no centro histórico do município de Petrópolis, no Rio de Janeiro, possui o principal acervo referente ao Império Brasileiro. O site da instituição disponibiliza diversas informações sobre o Primeiro e o Segundo Reinado por meio de documentos escritos, imagens e objetos do acervo do museu, além de publicações on-line. Também é possível fazer uma visita virtual para conhecer as exposições e a arquitetura do prédio, que foi residência de veraneio da família imperial.


A Confederação do Equador

Confederação do Equador


A dissolução da Assembleia Constituinte de 1823 e o caráter centralizador da Constituição de 1824 desagradaram as lideranças da província de Pernambuco, onde havia um forte sentimento antiportuguês e favorável à república. A difusão das ideias liberais na província tinha como principais representantes o médico e ativista político Cipriano Barata e o Frei Joaquim do Amor Divino Rabelo, conhecido popularmente como Frei Caneca, um dos líderes da Revolução Pernambucana de 1817.


Em seu periódico Sentinela da Liberdade, Cipriano defendia a liberdade de imprensa e um governo liberal e federativo para o país. Por suas posições políticas, foi preso em 1823 e libertado somente em 1830. Na prisão, Cipriano continuou a alimentar o movimento com as ideias liberais publicadas em seu jornal. Já Frei Caneca, por meio de seu jornal, o Tifis Pernambucano, denunciava o autoritarismo do governo imperial, propagava os ideais republicanos e conclamava o povo à revolta.


O estopim para a insurreição foi a nomeação, por parte do governo de D. Pedro I, de um novo presidente para a província de Pernambuco. Em julho de 1824, os revoltosos proclamaram a Confederação do Equador, propondo a formação de uma república independente. Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí e Paraíba aderiram à revolta.


O governo imperial reprimiu com violência o movimento: os principais líderes foram presos, e nove deles foram condenados à morte. Frei Caneca, figura central na revolta, foi morto a tiros depois da recusa do carrasco em enforcá-lo.



A execução de Frei Caneca, pintura de Murilo La Greca, sem data.


Bárbara de Alencar: líder rebelde do Cariri


Nascida em Exu, em Pernambuco, Bárbara de Alencar fez sua carreira política em Crato, no vale do Cariri cearense, onde ajudou a fortalecer os ideais republicanos. Proprietária de terras e escravos, ela pertencia à elite agrária do sertão e sua casa era usada como local de encontros políticos e sociais. Na Insurreição Pernambucana de 1817, tomada pelo fervor revolucionário, Bárbara e outros rebeldes arriaram a bandeira portuguesa do Paço Municipal de Crato e hastearam a bandeira da república. A rebelde teve os bens confiscados e foi presa com seus três filhos. Após terem passado quatro anos em prisões de Fortaleza, Recife e Salvador, eles foram libertados. Quando eclodiu a Confederação do Equador, a família engajou-se na nova rebelião republicana. Com a violenta repressão do governo de D. Pedro I, Bárbara refugiou-se em uma fazenda e dois dos seus filhos foram mortos pelas tropas imperiais. Bárbara é considerada a primeira revolucionária, republicana e antimonarquista do país e também a primeira prisioneira política.


Guerra pela Província Cisplatina


Durante o governo de D. João VI, a Banda Oriental (atual Uruguai), na Bacia do Prata, foi incorporada ao Brasil com o nome de Província Cisplatina. O controle da região era motivo de conflitos entre portugueses e espanhóis desde o século XVIII e tornou-se um problema também para o governo de D. Pedro I.


Em 1825, rebeldes da Província Cisplatina declararam a ruptura com o Brasil e a incorporação daquela região às Províncias Unidas do Rio da Prata (atual Argentina). Foi o início de uma guerra entre o Brasil e o governo de Buenos Aires que trouxe perdas humanas e custos financeiros para ambos.


A guerra terminou em 1828 com a independência da Província Cisplatina, que passou a se chamar República Oriental do Uruguai.



Juramento dos trinta e três orientais, pintura de Juan Manuel Blanes, 1877. A obra representa o momento em que os insurgentes juram libertar a Província Cisplatina do domínio brasileiro.


A abdicação de D. Pedro I


A crise econômico-financeira marcou o governo de D. Pedro I. O baixo preço dos produtos agrícolas no mercado internacional e os elevados gastos militares com a independência aumentaram a dívida pública. Sem dinheiro, o governo elevou a emissão de moedas, causando o aumento do custo de vida e a falência, em 1829, do Banco do Brasil.


A crise econômica intensificou o conflito entre o imperador e o Poder Legislativo, principalmente com a Guerra da Cisplatina, que obrigou o governo a elevar os impostos para sustentar o conflito. A Câmara dos Deputados, dominada pela oposição, só foi convocada em 1826. Visando controlar o Senado, o imperador escolheu seus membros numa lista de três candidatos mais votados em cada província.


Em abril de 1831, já não era possível contro- lar os protestos. Na capital e nas províncias, associações oposicionistas e até membros do alto-comando do exército pediam a derrubada do governo. Ao mesmo tempo, D. Pedro I sofria intensa pressão vinda de Lisboa, pois os liberais portugueses insistiam no retorno do imperador.


Isolado politicamente e abandonado pelos militares, em 7 de abril de 1831 D. Pedro I abdicou do trono do Brasil e partiu para a Europa. A Coroa ficou com seu filho, o brasileiro Pedro de Alcântara, na ocasião com 5 anos de idade. A abdicação do imperador significou a vitória das elites do Centro-Sul e a ruptura definitiva com Portugal.



A abdicação do primeiro imperador do Brasil, D. Pedro I, pintura de Aurélio de Figueiredo, 1911.


Filme

Independência ou morte

Clique no link abaixo para assistir 

https://youtu.be/sGr6lhUizjc?si=1MLBKILCMYjKE8Oc


Curiosidade sobre D. Pedro I

Exumação do corpo de D. Pedro I e suas esposas

https://youtu.be/9yDgWwvWiHs?si=Qx10Ox_koOe5VVaC

República Velha (1889 - 1930) República de Espada (1889 - 1894) e República do Café com Leite (1894 - 1930)

A República Velha (1889-1930): Das Espadas ao Café com Leite O que é uma República?  República, do latim "res publica"...