segunda-feira, 11 de setembro de 2023

Escravidão no Caribe e nos Estados Unidos

A escravidão no Caribe e nos Estados Unidos


O que há em comum entre os africanos escravizados no Brasil, nas ilhas caribenhas e nos Estados Unidos?


A conquista europeia do Caribe


Nas ilhas do Caribe, o comércio transatlântico de africanos e a colonização europeia também provocaram grandes transformações. Ao longo de quase 370 anos de tráfico negreiro, cerca de 4,8 milhões de africanos escravizados aportaram nas ilhas caribenhas, principalmente Jamaica, Hispaniola e Cuba, a maior parte deles vindos dos portos da África Ocidental.


Até o início do século XVII, as ilhas do Caribe estavam sob domínio espanhol. A primeira perda espanhola foram as Bermudas, tomada pelos ingleses em 1609. Poucos anos depois, eles conquistaram Barbados, onde introduziram a produção de açúcar em grandes propriedades escravistas. Na metade do século XVII, os ingleses ampliaram seus domínios conquistando a Jamaica e outras ilhas menores.



Trabalhadores negros em uma propriedade açucareira em Cuba. Foto de 1886, ano em que a escravidão foi abolida na colônia espanhola.


Tráfico negreiro e escravidão no Caribe


Os ingleses foram seguidos pelos franceses, que conquistaram Guadalupe, Martinica e a parte oeste da Ilha Hispaniola, onde fundaram a colônia de São Domingos (atual Haiti). Os holandeses também marcaram presença na região com a tomada de Aruba, Curaçao e outras pequenas ilhas. Os espanhóis mantiveram seu domínio em Cuba, Porto Rico e na parte leste da Ilha Hispaniola (atual República Dominicana) até o século XIX.


Entre os séculos XVI e XIX, o comércio transatlântico de escravizados forneceu a maior parte da população que habitava as ilhas do Caribe em 1850. Os ingleses dominaram o tráfico na região até 1807, quando o Parlamento britânico proibiu o tráfico negreiro entre a África e as colônias inglesas na América. Para se ter uma ideia, as colônias inglesas americanas absorveram 29% dos escravizados que desembarcaram no continente, o dobro das colônias francesas.


No século XVIII, São Domingos já era a principal colônia do Caribe francês. Era chamada de “Pérola das Antilhas”, por ser então uma das colônias mais ricas do mundo. Grande produtor de açúcar, cacau e café, São Domingos era também o segundo maior centro de desembarque de cativos no Caribe, perdendo apenas para a Jamaica.


Em Cuba, a partir da segunda metade do século XVIII, os escravizados foram beneficiados pela baixa migração de espanhóis e pelo crescimento econômico das colônias espanholas, situação que lhes possibilitou comprar suas alforrias. Os libertos passaram a exercer funções como de sapateiro, alfaiate e ourives e a integrar o exército, experimentando assim certa mobilidade social.


A conjuntura cubana mudou com a instalação tardia da plantation açucareira, a partir do final do século XVIII. Com a introdução da grande propriedade monocultora, o fluxo de escravizados para a colônia aumentou, garantindo a permanência da escravidão. Comerciantes dos Estados Unidos e da Inglaterra controlaram o fornecimento de escravizados para Cuba até 1807, quando o tráfico negreiro foi proibido pelo Parlamento dos dois países.


 O Caribe em 1700 



Fonte: CAMPOS, Flavio de; DOLHNIKOFF, Miriam. Atlas: história do Brasil. São Paulo: Scipione, 1993. p. 13.


A escravidão nos Estados Unidos



Família de escravizados em plantação de algodão na Geórgia; Estados Unidos, fotos do século XIX.


Ao longo do período em que o tráfico vigorou, cerca de 400 mil africanos foram desembarcados nas treze colônias inglesas da América do Norte. O comércio regular das treze colônias com a costa africana começou no final do século XVII e se prolongou após a independência e a formação dos Estados Unidos, em 1776. O último registro de entrada de africanos escravizados no novo país foi na década de 1850.


As colônias de Maryland, Virgínia, Carolina do Sul e Geórgia, no sul, receberam a maioria dos africanos escravizados. Trabalhando no cultivo de tabaco, algodão, anil e arroz, os escravizados representavam, em 1790, cerca de um terço da população dessas colônias. Desses, 42% viviam na colônia de Virgínia.


Após a independência dos Estados Unidos, a população de escravizados no sul cresceu de forma acelerada, atingindo cerca de 1,1 milhão em 1810 e mais de 3,9 milhões em 1860. Há duas explicações para esse crescimento. Primeiro, livres do domínio inglês, os comerciantes estadunidenses ampliaram a sua participação no tráfico de escravizados. Entre a independência e a proibição do tráfico negreiro pelo Congresso dos Estados Unidos, em 1807, eles transportaram 165 mil escravizados para o sul do país, o Caribe, as colônias espanholas e até o Brasil.


Mesmo com várias leis proibitivas, 110 viagens de navios negreiros com a bandeira dos Estados Unidos foram realizadas entre a África e as Américas entre 1850 e 1866. Porém, a principal razão para o rápido crescimento de escravizados no país foram os altos índices de reprodução entre eles. Os senhores, interessados em aumentar a oferta de mão de obra em suas propriedades, estimulavam seus escravizados a terem mais filhos.


É importante ressaltar que a escravidão nos Estados Unidos não se limitou aos estados do sul. Das 110 viagens de navios negreiros citadas acima, quarenta partiram do porto de Nova York. No final do século XVIII, a cidade de Nova York concentrava, proporcionalmente, a segunda maior população de escravizados urbanos do país, ficando atrás apenas de Charleston, na Carolina do Sul. No norte, os africanos e seus descendentes escravizados trabalhavam como criados, artesãos e na construção de obras públicas.



Mulher negra com os filhos dos patrões. Estados Unidos, fotos do século XIX.


A resistência à escravidão


Em toda a América escravista, houve manifestações de resistência à escravidão. O Caribe, por exemplo, foi palco de fugas e grandes revoltas de pessoas escravizadas. A maior delas ocorreu na colônia francesa de São Domingos. A revolta eclodiu em 1791, quando milhares de escravizados atearam fogo em canaviais e cafezais e assassinaram centenas de brancos. A insurreição levou à abolição da escravidão na ilha, em 1794, e à independência, em 1804, quando foi criado o Haiti.


Influenciados pelos acontecimentos do país caribenho, escravizados e libertos promoveram rebeliões e conspirações na capitania-geral da Venezuela, em 1795; em Havana (Cuba), em 1812; em Barbados, em 1816; em Demerara (Guiana Inglesa), em 1823; na Jamaica, em 1831 e 1832; entre várias outras. Ao longo do século XIX, com a abolição da escravidão nas ilhas do Caribe, teve início uma nova luta dos negros por inserção social.


Nos Estados Unidos, as revoltas, a sabotagem da produção e dos equipamentos, as fugas e a formação de quilombos também foram constantes. Ao longo do século XIX, o crescimento da população negra livre e dos movimentos abolicionistas colocou em xeque a escravidão no país. Os afro-americanos livres do norte se engajaram na luta pela liberdade e criaram sociedades de ajuda mútua, inclusive divulgando a causa abolicionista por meio de jornais. 


A Ferrovia Subterrânea


Nos Estados Unidos, entre o final do século XVIII e o início do século XIX, milhares de escravizados fugitivos dos estados do sul foram levados por grupos abolicionistas aos estados livres do norte, para o Canadá e em menor escala para o México. O percurso para a liberdade era feito por uma rede de rotas secretas, onde os fugitivos viajavam ocultos em carroças ou a pé, em vias pouco movimentadas. Essa ampla rede clandestina de solidariedade ficou conhecida como Underground Railroad (Ferrovia Subterrânea). Veja-a no mapa abaixo.



Fonte: Waggoner, C. (n.d.). The Underground Railroad (1820-1861). Social Welfare History Project. Disponível em <http://mod.lk/0yj5l>. Acesso em 24 jun. 2020.


A música como resistência


Nas Américas, cantos africanos eram entoados nas senzalas, nas plantações, nas cidades, nos locais de trabalho e de confraternização. A música, traço forte da cultura e da tradição oral africana, criava a noção de pertencimento a uma comunidade e era um importante instrumento de resistência à escravidão.


No século XIX, músicos negros do sul dos Estados Unidos adicionaram instrumentos e elementos musicais europeus às canções de matriz africana, criando o blues. Originalmente, esse estilo musical era cantado por escravizados, que entoavam sua dor e sofrimento nas lavouras de algodão como forma de amenizar suas péssimas condições de vida.


Em Nova Orleans, onde os negros tinham uma forte conexão com a música feita no Caribe, eles desenvolveram o jazz. Nos anos 1950, a música negra no país incorporou outros gêneros musicais estadunidenses, como o country e o gospel, e assim nasceram o R&B e o rock’n’roll.


Na década de 1960, organizações políticas lutavam contra a discriminação que ainda marcava a vida dos negros estadunidenses. As canções populares do movimento por direitos civis inspiraram a criação do soul, uma nova expressão musical que buscava valorizar o orgulho negro.


O rap, ritmo de grande sucesso mundialmente, surgiu nas ruas dos bairros pobres de Nova York, nos anos 1970, onde grupos de jovens negros se reuniam para ouvir música e dançar. Aos poucos, a eles se juntaram os MCs, que cantavam sobre o racismo e a situação de exclusão social em que viviam.



De cima para baixo: a cantora estadunidense de blues Bessie Smith, c. 1928; a cantora e compositora estaduniense de R&B e soul Aretha Franklin, c. 1970; e o rapper estadunidense Kendrick Lamar, em 2013.


Próxima aula

A crise do século XVII na Europa - O Estado absolutista em declínio.

https://historiaecio.blogspot.com/2023/09/crise-do-seculo-xvii-na-europa.html

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