domingo, 26 de outubro de 2025

Brasil 1945 - 1964. Uma breve história Democrática. Período Democrático entre duas ditaduras

Brasil 1945 - 1964. Um período de democracia e de desenvolvimento.

A Breve Primavera Democrática (1945-1964): Brasil entre Duas Ditaduras


O período que vai de 1945 a 1964 representa um dos capítulos mais complexos e dinâmicos da história do Brasil Republicano. Marcado por uma experiência democrática frágil e intensa, foi uma era de grandes esperanças, profundas contradições e agudos conflitos, encravada entre a ditadura do Estado Novo (1937-1945) e a ditadura militar que se iniciaria em 1964. Foi uma época em que o país se urbanizava rapidamente, industrializava-se e via suas massas populares ingressarem na vida política de forma irreversível.

O Fim da Era Vargas e o Declínio do Estado Novo

A ditadura do Estado Novo, chefiada por Getúlio Vargas, começou a ruir no contexto da Segunda Guerra Mundial. A contradição de o Brasil combater o fascismo na Europa ao lado dos Aliados, enquanto mantinha um regime de caráter autoritário em casa, tornou-se insustentável. A pressão interna por redemocratização crescia, liderada por setores da imprensa, por estudantes universitários (como a UNE) e por políticos liberais.

Vargas, um político astuto, percebeu a maré mudar. Em 1945, decretou uma anistia ampla, marcou eleições presidenciais e permitiu a organização de partidos políticos. Foram criadas duas grandes agremiações que dominariam a cena política pelos próximos vinte anos: o Partido Social Democrático (PSD), que reunia interventores estaduais e aliados da techno-burocracia varguista, e o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), focado nos sindicatos urbanos e na massa trabalhadora organizada pela legislação trabalhista de Vargas. A oposição liberal e conservadora se aglutinou na União Democrática Nacional (UDN).

Um movimento militar, conhecido como "O Movimento de 29 de Outubro", forçou a renúncia de Vargas, temendo que ele articulasse um golpe para se manter no poder. O fim do Estado Novo abriu caminho para as eleições diretas e o início do período democrático.

O Governo Eurico Gaspar Dutra (1946-1951)

Eleição e Política: Eurico Gaspar Dutra, ministro da Guerra de Vargas e candidato pela coligação PSD-PTB, venceu as eleições de 1945. Seu governo foi marcado pela tentativa de normalização institucional, com a promulgação de uma nova Constituição em 1946, democrática e liberal, que restabeleceu os direitos individuais e o voto secreto.

Economia: Inicialmente, Dutra adotou uma política econômica liberal, abolindo o controle estatal sobre importações e cambial. As reservas acumuladas durante a guerra foram rapidamente gastas em importações de bens de consumo supérfluos, esgotando-se em pouco tempo. Com a crise de divisas, o governo foi forçado a retomar o controle sobre as importações, privilegiando bens de capital para a indústria. Foi um período de contradição: liberalismo inicial seguido de um retorno à intervenção.

Cultura e Sociedade: Foi uma época de abertura cultural, com a influência norte-americana se tornando massiva através do cinema, da música (o jazz e o rock começavam a chegar) e dos costumes. No entanto, o governo também adotou uma postura conservadora, cassando o Partido Comunista Brasileiro (PCB) e rompendo relações com a União Soviética no contexto da Guerra Fria.

O Segundo Governo Vargas (1951-1954)

Eleição e Política: Getúlio Vargas retornou ao poder em 1951, desta vez pelo voto direto, como candidato do PTB com apoio do PSP (de Adhemar de Barros). Seu governo foi marcado por uma intensa polarização. De um lado, as forças trabalhistas e nacionalistas que o apoiavam; do outro, a oposição ferrenha da UDN, que o via como um ditador populista e corrupto. Seu principal algoz era o jornalista e deputado udenista Carlos Lacerda, dono do jornal Tribuna da Imprensa, que fazia oposição sistemática e pessoal a Vargas, acusando-o de corrupção e de preparar um novo golpe.

Economia e o Nacional-Desenvolvimentismo: A tônica do governo foi o nacional-desenvolvimentismo. Sob a batuta de seu ministro do Trabalho, João Goulart, e com a criação de estatais estratégicas como a Petrobras (1953) – sob o lema "O petróleo é nosso!" –, Vargas defendia que a industrialização pesada do país deveria ser liderada pelo Estado, com capital nacional. Esta visão se chocava frontalmente com a dos setores liberais e estrangeiros, que acusavam Vargas de "entreguista" em alguns momentos e, em outros, de criar obstáculos ao capital internacional. A crise econômica, com alta da inflação e descontentamento popular, alimentava a oposição.

Crise e Suicídio: A tensão atingiu seu ápice com o "Atentado da Rua Tonelero", em agosto de 1954, quando pistoleiros ligados à guarda presidencial tentaram assassinar Carlos Lacerda, mas mataram seu acompanhante, o major-aviador Rubens Vaz. As investigações apontaram para a cumplicidade do chefe da guarda presidencial de Vargas, Gregório Fortunato. Isolado e sob forte pressão militar para se demitir, Vargas optou pelo caminho mais dramático. Na madrugada de 24 de agosto de 1954, suicidou-se com um tiro no coração no Palácio do Catete. Deixou uma carta-testamento acusando "forças e interesses contra o povo" e declarando ter "lutado contra a espoliação do Brasil". Sua morte causou uma comoção nacional enorme, com manifestações de massa que impediram, por um tempo, a escalada golpista.

O Governo Juscelino Kubitschek (1956-1961)

Eleição e Política: Juscelino Kubitschek (PSD) venceu as eleições de 1955 com Jango Goulart (PTB) como vice, sob a plataforma do "Plano de Metas", cujo lema era "Cinquenta anos em cinco". Para garantir a posse, diante de uma tentativa de golpe da UDN (o "Movimento de 11 de Novembro"), os militares legalistas, liderados pelo general Henrique Teixeira Lott, garantem a ordem através de um "contragolpe".

Economia e o Plano de Metas: JK foi o grande realizador do desenvolvimentismo. Seu governo foi um período de otimismo e crescimento econômico acelerado. O Plano de Metas concentrou investimentos em energia, transporte, indústria de base e alimentícia. A indústria automobilística foi implantada, mudando para sempre a paisagem urbana do país. A abertura ao capital estrangeiro foi uma característica marcante, atraindo multinacionais para setores-chave.

Cultura e Sociedade: Foi a "Era de Ouro" da cultura brasileira. A Bossa Nova surgia, sintetizando o jazz com o samba. O cinema ganhava força com a comédia da "Vera Cruz" e o início do Cinema Novo. A arquitetura modernista florescia. Era a imagem de um país moderno, confiante e voltado para o futuro.

Brasília e Endividamento: Sua obra máxima foi a construção de Brasília, inaugurada em 1960. A nova capital simbolizava a marcha para o interior e a superação de um passado colonial. No entanto, o custo foi altíssimo. O endividamento externo disparou, e a inflação, contida artificialmente, começou a sair do controle, plantando as sementes da crise que assomaria os governos seguintes.

O Governo Jânio Quadros (1961)

Eleição e Política: Jânio Quadros, um político excêntrico e carismático, venceu as eleições de 1960 com um discurso moralizador (símbolo da vassoura) e de oposição a JK. Sem base partidária sólida, governou de forma errática e isolada.

Economia e Sociedade: Tentou implementar uma política de austeridade para conter a inflação e o déficit, mas suas medidas foram impopulares, como a proibição do jogo e das brigas de galo.

Política Externa: Sua política externa independente foi o aspecto mais marcante. Buscou o não alinhamento na Guerra Fria, reatando relações com a União Soviética e condecorando o revolucionário Che Guevara. Isso alarmou os setores conservadores e militares.

Crise e Renúncia: Em 25 de agosto de 1961, após apenas sete meses no governo, Jânio Quadros renunciou em uma manobra política arriscada, acreditando que seria reconduzido ao poder pelo clamor popular. O cálculo falhou. A renúncia abriu uma crise constitucional, pois o vice-presidente, João Goulart, era visto com extrema desconfiança pelos militares por suas ligações com os sindicatos e a esquerda trabalhista.

O Governo João Goulart (1961-1964)

Chegada ao Poder e Parlamentarismo: Os ministros militares tentaram impedir a posse de Jango, alegando que ele seria "um Mandela brasileiro". A resistência civil, liderada pelo cunhado de Jango, Leonel Brizola, então governador do Rio Grande do Sul (na "Cadeia da Legalidade"), e a pressão de setores militares legalistas, forçaram um compromisso: Goulart assumiria, mas sob um sistema parlamentarista, que reduzia seus poderes.

Política e as Reformas de Base: Em 1963, um plebiscito restaurou o presidencialismo. Jango, então, lançou seu projeto de Reformas de Base. Estas incluíam reformas de grande alcance: agrária (desapropriação de latifúndios), urbana, fiscal, eleitoral (extensão do voto aos analfabetos e soldados) e universitária. O projeto era apoiado pelas esquerdas, sindicatos e movimentos sociais (como as Ligas Camponesas), mas era visceralmente rejeitado pela direita, pelos empresários, pela grande imprensa e pelos militares, que o viam como um caminho para o comunismo.

Economia e Sociedade: A economia estava em frangalhos, com inflação galopante e estagnação. O governo perdia o controle. A polarização atingiu níveis extremos. De um lado, Jango era pressionado pela esquerda a radicalizar; do outro, a direita organizava marchas conservadoras, como a "Marcha da Família com Deus pela Liberdade".

Crise e Golpe de 1964: Em 13 de março de 1964, Jango realizou um grande comício na Central do Brasil, no Rio de Janeiro, decretando a nacionalização de refinarias privadas e a desapropriação de terras, radicalizando seu discurso. Em resposta, a oposição organizou a "Marcha da Família" em São Paulo. O estopim final foi o discurso de Jango para sargentos no Automóvel Clube do Brasil, em 30 de março, visto pelos militares como uma incitação à quebra da hierarquia. Na madrugada de 31 de março para 1º de abril de 1964, tropas militares de Minas Gerais, sob o comando do general Olímpio Mourão Filho, iniciaram o movimento que depôs João Goulart, que, sem apoio militar significativo, refugiou-se no Sul e depois no exílio. A experiência democrática de 1945 chegava ao fim, e iniciava-se uma ditadura militar que duraria 21 anos.

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Este período, apesar de sua instabilidade, foi fundamental para a formação do Brasil moderno. Nele, a industrialização se consolidou, os direitos trabalhistas se expandiram, a cultura floresceu e a população se tornou ator político. Suas contradições e conflitos, no entanto, revelavam as profundas divisões de uma sociedade em rápida transformação, que não soube, ou não pôde, conciliar seus projetos em disputa de forma pacífica.

ATIVIDADE PONTUADA (+1,0)

Exercício: A História do Brasil no Período Democrático (1945-1964)

Parte 1: Questões Discursivas

Instruções: Responda às questões abaixo de forma clara e completa, utilizando os conhecimentos construídos a partir do texto base.

1. Explique por que a ditadura do Estado Novo, chefiada por Getúlio Vargas, entrou em declínio em 1945.

2.Descreva a principal contradição da política econômica adotada no governo Eurico Gaspar Dutra (1946-1951).

3.O que foi o "nacional-desenvolvimentismo" no segundo governo de Vargas (1951-1954) e qual foi sua principal realização no setor de infraestrutura?

4.Qual foi o papel de Carlos Lacerda no segundo governo Vargas e qual evento culminante intensificou a crise política que levou ao suicídio do presidente?

5.Qual era o lema do "Plano de Metas" de Juscelino Kubitschek e quais foram seus dois principais eixos de atuação para alcançá-lo?

6.A construção de Brasília durante o governo JK é carregada de simbolismos. Explique o significado político e social da nova capital.

7.A política externa independente de Jânio Quadros causou forte reação. Dê dois exemplos de ações que caracterizaram essa política.

8.Por que a renúncia de Jânio Quadros, em 1961, desencadeou uma grave crise política?

9.O que eram as "Reformas de Base" propostas pelo governo João Goulart? Cite três exemplos.

10.Descreva o contexto imediato (os dois eventos-chave) que serviu de estopim para o Golpe Militar de 1964.

Parte 2: Questões de Múltipla Escolha

Instruções: Para cada questão, marque a alternativa correta.

11. Os dois principais partidos políticos criados no final do Estado Novo e que dominaram a cena política no período 1945-1964 foram:

a)UDN e PCB
b)PSD e PTB
c)PTB e PCB
d)PSD e UDN

12. A Constituição promulgada em 1946, durante o governo Dutra, caracterizou-se por ser:

a)Outorgada e centralizadora, mantendo os princípios do Estado Novo.
b)Democrática e liberal, restabelecendo direitos individuais e o voto secreto.
c)Socialista, inspirada no modelo da União Soviética.
d)Monárquica, restaurando os poderes do Imperador.

13. O lema "O petróleo é nosso!" está associado à criação de qual estatal durante o segundo governo Vargas?

a)Eletrobras
b)Petrobras
c)Vale do Rio Doce
d)Chesf

14. O evento dramático que marcou o fim do segundo governo Vargas, em 24 de agosto de 1954, foi:

a)Seu impeachment pelo Congresso Nacional.
b)Seu assassinato por opositores políticos.
c)Seu suicídio no Palácio do Catete.
d)Sua renúncia forçada pelos militares.

15. O "Plano de Metas" do governo Juscelino Kubitschek tinha como slogan:

a)"Ordem e Progresso"
b)"Cinquenta anos em cinco"
c)"Trabalhadores do Brasil, uni-vos!"
d)"Independência ou Morte"

16. A política externa independente de Jânio Quadros foi marcada por:

a)Um alinhamento automático aos Estados Unidos.
b)A ruptura de relações com todos os países socialistas.
c)A condecoração do revolucionário Che Guevara.
d)A entrada do Brasil no Pacto de Varsóvia.

17. Para assumir a presidência após a renúncia de Jânio Quadros, João Goulart foi submetido a um sistema de governo que reduzia seus poderes. Esse sistema era:

a)O Presidencialismo.
b)O Parlamentarismo.
c)O Coronelismo.
d)O Comunismo.

18. As "Reformas de Base" propostas por João Goulart incluíam uma reforma que previa a desapropriação de grandes propriedades rurais. Essa reforma era a:

a)Reforma Urbana.
b)Reforma Eleitoral.
c)Reforma Agrária.
d)Reforma Bancária.

19. Qual foi o movimento de rua, organizado pela oposição conservadora, que demonstrou o apoio da classe média ao Golpe de 1964?

a)Marcha da Vitória.
b)Marcha da Família com Deus pela Liberdade.
c)Passeata dos Cem Mil.
d)Marcha do Silêncio.

20. O Golpe Militar de 1964 que depôs João Goulart teve início com a movimentação de tropas do general Olímpio Mourão Filho em qual estado?

a)São Paulo
b)Rio Grande do Sul
c)Minas Gerais
d)Rio de Janeiro

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