quarta-feira, 9 de agosto de 2023

Povos nativos

Os povos nativos (Povos pré-cabralinos)


Os povos de Pindorama


Os portugueses não foram os primeiros habitantes das terras que viriam a ser chamadas de Brasil. Quando aqui chegaram, em 1500, encontraram povos com cultura, costumes, organização social e línguas totalmente diferentes das que conheciam na Europa, na África e no Oriente.


Calcula-se que, na época da chegada dos portugueses, entre 3 milhões e 5 milhões de nativos habitavam o território brasileiro, distribuídos em mais de mil povos que falavam aproximadamente 1.300 línguas. Cada um desses povos possuía seus rituais, crenças, mitos, línguas, formas de trabalho e organização social.


As línguas mais faladas pelos indígenas do Brasil podem ser agrupadas em dois troncos linguísticos, Tupi e Macro-Jê, compostos de diversas famílias linguísticas. Além delas, há várias famílias linguísticas cujas semelhanças não são suficientes para formar um tronco linguístico, como Aruaque e Caraíba.


Por estarem distribuídos ao longo da costa brasileira, os povos Tupi foram os que mais contato tiveram com os portugueses. Eles chamavam o Brasil de Pindorama, que na sua língua significa “terra das palmeiras”.


Os povos indígenas no Brasil em 1500 


CATHERINE A. SCOTTON



Fonte: Atlas histórico escolar. Rio de Janeiro: FAE, 1991. p. 12.


Formas de organização social


Os Tupi, em geral, andavam nus, com pinturas pelo corpo e adornos feitos de penas. Praticavam a agricultura de subsistência, cultivando mandioca, milho, inhame, abóbora, batata-doce, entre outros alimentos. Coletavam frutos, caçavam e pescavam. Com troncos de árvores, ossos, fibras vegetais, barro e madeira, confeccionavam diferentes artigos, como canoas, arcos e flechas, redes, cestos, vasos e urnas funerárias.


Os Tupi e a maior parte dos povos indígenas que habitavam o Brasil na época da chegada dos portugueses viviam em aldeias. As moradias podiam estar organizadas em um círculo ou em fileiras. Porém, em algumas aldeias, havia apenas uma grande casa comum.


As aldeias estabeleciam entre si laços de solidariedade. Entretanto, havia guerras constantes entre povos diferentes. Muitas vezes, os conflitos ocorriam quando um povo queria afirmar sua superioridade sobre outro grupo.


Além disso, os indígenas não tinham um Estado organizado. Entre os Tupi, por exemplo, não existia um poder centralizado, exercido por um rei ou alguém com autoridade para dar ordens aos demais. Reunidos numa espécie de conselho, os líderes, chamados principais, decidiam em conjunto o destino da aldeia. Os primeiros a serem ouvidos eram os membros mais corajosos.


THEODORE DE BRY - ARQUIVO HISTÓRICO DA MARINHA FRANCESA, VINCENNES


Índio ou indígena?


O termo “índio” originalmente expressava uma visão preconceituosa por parte do conquistador. Ao longo do tempo, porém, ele foi ressignificado. Hoje, documentos oficiais, entidades indígenas e estudiosos utilizam esse termo para se referir aos povos nativos do Brasil e seus descendentes, com seus diferentes modos de vida e identidade cultural. Nesse aspecto, podemos considerar que o termo perdeu o sentido pejorativo. Contudo, o escritor indígena Daniel Munduruku apresenta outro ponto de vista.


“Sempre que posso tenho falado sobre os equívocos que cercam a palavra ‘índio’. Faço uma provocação e tenho certeza [de] que muitas pessoas, especialmente professores, ficam com a ‘pulga atrás da orelha’. Sempre que isso acontece alcanço meu objetivo. A inquietação é já um princípio de mudança. Ficar incomodado com os saberes engessados em nossa mente ao longo dos séculos é uma atitude sábia de quem se percebe parte do todo [...].


[...] [o termo índio] não é uma definição, é um apelido, e apelido é o que se dá para quem parece ser diferente de nós ou ter alguma deficiência que achamos que não temos. Por este caminho veremos que não há conceitos relativos ao termo ‘índio’, apenas preconceito: selvagem, atrasado, preguiçoso, canibal [...] são alguns deles. [...]


Por outro lado, o termo ‘indígena’ significa ‘aquele que pertence ao lugar’, ‘originário’, ‘original do lugar’. Pode-se notar, assim, que é muito mais interessante reportar-se a alguém que vem de um povo ancestral pelo termo ‘indígena’ que ‘índio’.”


MUNDURUKU, Daniel. Três reflexões sobre os povos indígenas e a lei 11.645/08. Disponível em <http://mod.lk/2zmnv>. Acesso em 2 mar. 2020.


Trabalho e religiosidade


O trabalho nas aldeias era dividido conforme o sexo e a idade. Em geral, as mulheres plantavam e cuidavam da colheita; fabricavam farinhas, especialmente de mandioca, fiavam e teciam, além de cuidarem das crianças. Os homens eram responsáveis pela caça, pesca, construção de moradias, fabricação de canoas e armas e pelo corte da lenha. Também derrubavam, queimavam e limpavam a mata, preparando-a para o plantio. Os idosos tinham papel fundamental na educação das crianças e na transmissão da cultura para as gerações mais jovens.


Cada povo indígena possuía crenças e rituais religiosos próprios. Entretanto, todos acreditavam nas forças da natureza e nos espíritos dos antepassados, para os quais realizavam cerimônias e festas. O responsável por ensinar os rituais e transmitir as tradições religiosas era o pajé.


A guerra e o ritual antropofágico


A guerra era um valor central da cultura Tupi e servia, principalmente, para vingar parentes mortos pelo inimigo. Associado à guerra estava o ritual da antropofagia, quando o inimigo capturado no conflito era morto e devorado em uma grande festa.


Primeiro, o prisioneiro era levado à aldeia, onde podia integrar-se à rotina do lugar. Ele devia ser bem tratado e alimentado por uma mulher, que lhe era cedida como companheira temporária. Chegado o grande dia, os Tupi realizavam danças e cantos rituais, além de um grande banquete. Só então o inimigo era morto. Seus membros eram cortados, cozidos e divididos entre os indígenas da aldeia.


Ser devorado em um ritual antropofágico era um destino digno na vida de um guerreiro. Isso porque, para os Tupi, os mortos em guerra iam para uma espécie de Paraíso, onde estavam seus ancestrais. Aqueles que comiam a carne do inimigo acreditavam que, assim, incorporariam a força, a coragem e o espírito do valente guerreiro.


THEODORE DE BRY - ARQUIVO HISTÓRICO DA MARINHA FRANCESA, VINCENNES



Cena de canibalismo, gravura colorizada de Theodore de Bry, 1592.


O contato com o “outro”

O que os indígenas teriam pensado quando avistaram as caravelas de Cabral? Quais foram suas impressões ao ver homens barbados, vestidos, vindos do mar em embarcações muito diferentes das canoas que conheciam?


Os povos indígenas não deixaram registros sobre o encontro entre eles e os portugueses. Contudo, podemos imaginar que as diferenças culturais causaram grande estranhamento nos nativos.


Os relatos dos portugueses sobre os primeiros contatos com os indígenas mostram que o espanto foi grande entre os europeus.


Veja como Pero Vaz de Caminha, escrivão oficial da expedição de Cabral, descreveu o primeiro encontro com os indígenas:


“A feição deles é parda, um tanto avermelhada, com bons rostos e bons narizes, benfeitos. Andam nus, sem nenhuma cobertura. Não fazem o menor caso de encobrir ou de mostrar suas vergonhas, e nisso têm tanta inocência como em mostrar o rosto. […]


[Os indígenas] Entraram [na caravela]. Mas não fizeram nenhum gesto de cortesia, nem sinal de querer falar ao capitão ou a alguém. […]


Deram-lhes comida: pão e peixe cozido, doces, bolos, mel e figos passados. Não quiseram comer quase nada disso e, se alguma coisa provavam, logo a cuspiam [...].”


TUFANO, Douglas. A carta de Pero Vaz de Caminha: comentada e ilustrada. São Paulo: Moderna, 1999. p. 31-33.


Outro registro do primeiro encontro entre portugueses e indígenas é a Relação do piloto anônimo, espécie de diário não oficial da expedição cabralina. Veja como ele descreveu um dos momentos do contato com os nativos:


“Naquele mesmo dia que era a oitava da Páscoa, a 26 de abril, determinou o capitão-mor ouvir missa, e mandou levantar um altar, e todos os da dita armada foram ouvir missa e sermão, onde se juntaram muitos daqueles homens bailando e cantando com as suas buzinas. [...]. E depois, tendo o capitão jantado, voltou à terra a gente da dita armada, para se distraírem e divertirem com os homens da terra. E começaram a tratar com os da armada, e davam dos seus arcos e flechas em troca de guisos, e folhas de papel e peças de pano. E todo aquele dia se divertiram com eles.”


Relação do piloto anônimo [1501]. Portal Domínio Público. Disponível em <http://mod.lk/gjepd>. Acesso em 2 mar. 2020.


Note que o relato do piloto anônimo descreve o primeiro contato entre indígenas e portugueses como pacífico e alegre.


Do estranhamento à negação


Os dois relatos que você leu sobre o encontro entre portugueses e indígenas mostram que o estranhamento foi recíproco, como acontece com qualquer indivíduo que se vê diante de uma realidade inteiramente nova. Esse primeiro momento foi também de encantamento com o diferente, de curiosidade em conhecer o novo e de trocas de presentes.


No entanto, à medida que os portugueses foram conhecendo os costumes nativos, o estranhamento se transformou em negação e repulsa, especialmente em relação aos rituais de antropofagia. Assim, partindo de uma visão eurocêntrica, eles classificaram os nativos como seres inferiores e selvagens, sem cultura, leis e religião, e que deviam ser “civilizados”. Com essa visão, os portugueses procurariam justificar as guerras e a escravização dos indígenas. Também se investiriam da tarefa de “salvá-los da vida em pecado” por meio da catequização, isto é, a adequação dos nativos ao mundo cristão.


REPRODUÇÃO AUTORIZADA POR JOÃO CANDIDO PORTINARI/IMAGEM CEDIDA PELO PROJETO PORTINARI - MUSEU NACIONAL DE BELAS ARTES, RIO DE JANEIRO


Foto do quadro - Exercícios povos nativos


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