quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

Reformas e contestações na Guerra Fria

Reformas e contestações na Guerra Fria


Reformas na Europa Ocidental

Como vimos, o cenário do pós-Segunda Guerra na Europa era desolador. Muitas das grandes cidades foram seriamente danificadas pelas invasões, pelas batalhas e pelos bombardeios. O parque industrial dos países envolvidos no conflito, dos dois blocos, estava praticamente destruído. Temia-se, na época, que essa situação de pobreza generalizada pudesse favorecer o avanço do comunismo na Europa Ocidental.


O pós-Segunda Guerra - cidades foram destruídas.

É nesse contexto que podemos entender a ajuda financeira dos Estados Unidos aos países da Europa Ocidental, por meio do Plano Marshall, e a formação de um modelo de governo preocupado com a educação, a saúde e os direitos sociais dos trabalhadores, o chamado Estado de bem-estar social (Welfare State).


Plano Marshall

Estado de bem-estar social

A política econômica e social desenvolvida na Europa Ocidental teve origem nas teorias elaboradas pelo economista inglês John Maynard Keynes, que pregava um modelo de Estado mais regulamentador, que impulsionasse investimentos na produção e se comprometesse com programas de desenvolvimento social. Conhecido como keynesianismo, esse foi o modelo adotado pelo presidente Franklin Roosevelt nos Estados Unidos dos anos 1930, que, junto ao New Deal, contribuiu para combater os efeitos da crise econômica de 1929.


John Maynard Keynes


Keynesianismo

A intervenção do Estado na promoção de benefícios sociais combinava-se com uma política de controle da economia, centrada em programas de estatização de setores estratégicos de cada país, como o sistema financeiro, os meios de transporte, a produção de energia e as comunicações, em parceria com a iniciativa privada.

 A Europa do bem-estar social

O resultado da reorientação do papel do Estado foi a formação de um enorme contingente de pessoas beneficiadas pelos serviços por ele prestados. Pela primeira vez, os serviços públicos passaram a ser vistos como obrigação do Estado e direito do cidadão.


Protestos por uma educação pública de qualidade - Obrigação do Estado.

O Estado de bem-estar social, além de garantir educação, saúde e outros serviços públicos de qualidade, proporcionou aos trabalhadores acesso a artigos de consumo, como automóveis e viagens de férias. No entanto, mesmo garantindo a permanência da democracia e do capitalismo, as reformas promovidas pelos governos social-democratas não conseguiram evitar movimentos de contestação ao capitalismo no bloco ocidental.


Welfare State

O Maio de 1968


Protestos de Maio de 1968 na França

O mais célebre movimento de contestação às estruturas de poder no bloco ocidental foi o Maio de 1968, na França. O movimento começou em março com o protesto de estudantes da Universidade de Nanterre, nos arredores de Paris, contra as punições disciplinares e a burocracia na instituição, levando à ocupação da universidade. Logo o movimento recebeu a adesão de outros estudantes e tomou as ruas de Paris em maio, em reivindicação pela reforma da grade curricular.


Universitários protestando

A partir das pautas educacionais, o movimento rapidamente agregou outras reivindicações, como o fim da Guerra do Vietnã, a reformulação das estruturas de poder do Estado, da Igreja e da família tradicional, a liberalização dos costumes e, por fim, as críticas ao capitalismo, ao imperialismo estadunidense e ao autoritarismo soviético.

A violenta repressão policial contra os estudantes insuflou outros setores descontentes. Assim, fortalecendo o movimento, mais de 6 milhões de operários entraram em greve em várias cidades da França por melhores salários, jornada de trabalho de 40 horas semanais e outros direitos trabalhistas.


Repressão policial contra os manifestantes franceses em 1968.

O movimento terminou em junho, quando o governo conservador que venceu as eleições na França dissolveu os grupos de esquerda, proibiu as manifestações e coagiu os operários a retornar ao trabalho. No entanto, os questionamentos levantados pela geração de Maio de 1968 permaneceram vivos, influenciando sociedades no mundo todo.


Cerca de 10 mil estudantes saem em protesto nas ruas do bairro Quartier Latin, em Paris, França, em 6 de maio de 1968.

A Primavera de Praga


Em um cenário de estagnação econômica e autoritarismo político, o movimento visava a implantação de reformas defendidas Alexander Dubcek e a democratização do socialismo na Tchecoslováquia.


Onde ficava a Tchecoslováquia? Tchecoslováquia foi um país que existiu na Europa Central entre 1918 e 1992 (com a exceção do período da Segunda Guerra Mundial, ver Acordo de Munique). Hoje, o antigo território deu origem a República Tcheca e a República da Eslováquia.

A Tchecoslováquia foi formada em 1918 com a dissolução do Império Austro-Húngaro. Ocupado pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, o território foi libertado pela União Soviética em 1944. Os acordos firmados entre as potências aliadas ao final da guerra colocaram a Tchecoslováquia na área de influência soviética.


Em 1944, os soviéticos expulsaram os alemães da região e a adoção do socialismo ocorreu a partir de 1948

A adoção do socialismo, a partir de 1948, estimulou o desenvolvimento econômico do país por meio da indústria pesada e promoveu melhorias no ensino e na saúde. Na esfera política, contudo, estabeleceu-se uma ditadura de partido único, que silenciava os opositores com a censura e a repressão. A partir dos anos 1960, a estagnação econômica e o autoritarismo político levaram setores da sociedade, sobretudo na capital, Praga, a apoiar as ideias reformistas de Alexander Dubcek, dirigente eleito pelo Partido Comunista em janeiro de 1968.


Alexander Dubcek

As propostas liberalizantes de Dubcek tinham como objetivo democratizar o socialismo na Tchecoslováquia: acabar com a censura, reestabelecer a liberdade de expressão e o pluripartidarismo e mesclar uma economia estatal com o livre mercado. O apoio popular às reformas de Dubcek deu início à Primavera de Praga. Nesse breve período, houve liberdade de expressão e reunião; assim, estudantes e intelectuais puderam reivindicar a ampliação das liberdades, e trabalhadores se organizaram exigindo o controle operário das fábricas.

Temendo perder o controle sobre o Estado satélite, a União Soviética reagiu. Na noite de 20 para 21 de agosto de 1968, tropas do Pacto de Varsóvia invadiram a Tchecoslováquia. A população, disposta a resistir, ocupou as ruas. Mas era inútil. Os dirigentes do Partido Comunista, pressionados, cederam um após outro. Dubcek foi preso e levado a Moscou, onde foi obrigado a declarar o fim da Primavera de Praga.


Tanque soviético tomado pela resistência popular em Praga, na Tchecoslováquia, em 21 de agosto de 1968.

A contracultura


Contracultura -  movimento de questionamento e negação da cultura vigente que visa quebrar tabus e contrariar normas e padrões culturais que dominam uma determinada sociedade. Em geral, as ações de contracultura surgiram de jovens descontentes com a vida e os padrões estabelecidos por seus pais.

Muitas mobilizações que marcaram a Guerra Fria ultrapassaram as disputas ideológicas entre os defensores do capitalismo ou do socialismo. Nos anos 1960, por exemplo, emergiu entre os jovens dos Estados Unidos o movimento da contracultura, que questionava as estruturas sociais e culturais dominantes, opondo-se às guerras, à sociedade de consumo, ao trabalho formal, à família tradicional e ao casamento. Paz, amor, liberdade sexual e vida em comunidade expressaram o modo de vida de muitos jovens estadunidenses do período.

 Da geração beat ao rock


Hipster década 1940

No final da década de 1940 e ao longo da década seguinte, surgiu nos Estados Unidos um grupo de jovens conhecidos como hipsters. Boêmios e de aparência desleixada, esses jovens viviam movidos pelo som do jazz. Eles não viam perspectiva de mudança na sociedade e no ser humano, que estavam fadados a desaparecer em uma iminente hecatombe nuclear.


Geração beat

Os hipsters se uniram a outros jovens poetas incomodados com a alienação da sociedade. Dessa união, surgiu um movimento cultural que ficou conhecido como geração beat. Vanguardistas, eles produziam uma poesia que abordava assuntos considerados tabus, como as drogas, a homossexualidade e o poder exercido pelo Estado sobre os cidadãos.


Definição de tabu

A geração beat que surgiu em Nova York uniu-se a outro grupo de poetas de vanguarda que atuava na cidade de São Francisco. Eles criticavam a sociedade de consumo estadunidense e os abusos do governo contra as minorias sociais. Esse encontro serviu de base cultural, referência e inspiração para a geração rock’n’roll, formada em meados da década de 1950.


Rock n' roll

Esse novo gênero musical, sensual e delirante nasceu da mistura de dois gêneros musicais: o blues e o country. O rock passou então a fazer parte da vida dos jovens, que dançavam ao som que emanava de guitarras elétricas, pianos e baterias de músicos como Chuck Berry, Little Richard e Elvis Presley.


Chuck Berry

Ao se tornar cada vez mais um gênero musical representativo da juventude, o rock’n’roll passou a incorporar muitas das experiências da geração beat, como a poética e o estilo de vida. Mais do que tudo, ele contestava os valores da sociedade capitalista ocidental, como as tradições familiares e a vida burocratizada, esta marcada pelas exigências do mercado de trabalho.


American way of life ou "estilo de vida americano" foi um modelo de comportamento surgido nos Estados Unidos após a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais. Este modo de viver passava pelo consumismo, a padronização social e a crença nos valores democráticos liberais.

Em 1962, uma associação de estudantes publicou um manifesto que criticava o american way of life e a Guerra do Vietnã. A atitude desencadeou um enorme movimento de contestações e debates, colocando em pauta os objetivos que a juventude tanto procurava.


Jovens hippies em ônibus colorido no Novo México, Estados Unidos. Foto de julho de 1968. Com uma estética própria, usando roupas e adereços multicoloridos, os hippies criaram uma contracultura, levando uma vida comunitária ao som do rock’n’roll.

Rock'n'roll na terra da rainha

Na Grã-Bretanha, outros grupos de jovens começavam a se organizar em bandas que viriam ampliar o rock produzido nos Estados Unidos. Os músicos britânicos vinham principalmente de duas cidades com expressiva classe operária, Liverpool e Manchester, e da capital inglesa, Londres. Eles formaram uma nova “onda” que invadiu a Grã-Bretanha e os Estados Unidos na década de 1960.


Beatles

A primeira banda a surgir no cenário mundial foi a dos Beatles, nascida na cidade de Liverpool em 1960. Suas primeiras canções eram dançantes e falavam de amor. Na mesma época, surgiu outra banda britânica de renome mundial, os Rolling Stones. Diferentemente dos Beatles, os Stones colocaram nas paradas de sucesso músicas que refletiam o olhar dos jovens rebeldes sobre o mundo e causavam pânico na sociedade conservadora de então.


Rolling Stones



Capa do disco de estreia da banda The Velvet Underground, de 1967. Andy Warhol, então empresário e produtor da banda, desenhou a capa do disco.

Uma juventude contestadora

O comportamento contestador da juventude roqueira, que se caracterizava por uma moral e uma conduta mais livres, pelo uso de roupas mais despojadas, pela pregação em favor do amor livre, da paz e das relações inter-raciais, contribuiu para promover aberturas na sociedade.

A rebeldia em busca de um mundo melhor e mais justo propiciou o surgimento de diversos movimentos de contestação, tendo como centro os Estados Unidos. O movimento Flower Power, praticado e difundido pelos hippies nos anos 1960, pregava a não violência. Lutando contra a opressão sobre as mulheres e por sua liberdade de expressão e manifestação, surgiu o Women’s Lib ou movimento feminista. Movimentos como o Gay Power, organizado pelas minorias sexuais, e o Black Power, criado pelo movimento negro, também surgiram no período.

Essa nova maneira de ver o mundo também se expressou nas artes plásticas, por meio da arte pop, que celebrava a cultura de massa, descartável e jovem. O artista mais conhecido desse movimento foi o estadunidense Andy Warhol (1928-1987). Ele colaborou, por exemplo, na criação da arte exposta em muitas capas de discos e folhetos de propaganda dos shows de rock daquele período.


O guitarrista Jimi Hendrix (1942-1970) durante show na Grã-Bretanha. Foto de 1969.

O Festival de Woodstock

O rock’n’roll foi celebrado em grandes festivais de música naquele período. O mais importante de todos foi o Festival de Woodstock, de 1969, que reuniu mais de 500 mil jovens na cidade de Bethel, no estado de Nova York. Nesses três dias de paz, amor e música, muitos expoentes do rock levantaram a multidão com canções contra a Guerra do Vietnã. Considerado o maior guitarrista de todos os tempos, Jimi Hendrix tocou o hino dos Estados Unidos evocando, com os sons de sua guitarra, um bombardeio de aviões durante a guerra.


Festival Woodstock 1969

O movimento feminista

Essa onda de críticas e contestações dos anos 1960 também fortaleceu a luta das mulheres. Após a Segunda Guerra, as mulheres conquistaram o direito ao voto na maior parte dos países ocidentais e passaram a representar uma parcela cada vez mais expressiva da força de trabalho urbana. Porém, mesmo tendo conquistado direitos e espaço na vida pública, elas continuavam recebendo salários mais baixos que os dos homens, eram desvalorizadas intelectualmente e submetidas a um padrão de comportamento que as vinculava ao ambiente doméstico e familiar.

Por essa razão, a década de 1960 marcou uma nova fase no movimento feminista. Não se tratava apenas do direito à educação, ao trabalho e à atividade política, mas de estabelecer uma nova forma de relacionamento entre homens e mulheres, bem como de garantir a autonomia da mulher sobre seu corpo e sua sexualidade.

Assim, diferentes pautas sobre as relações pessoais passaram a ser discutidas mais abertamente, como os métodos contraceptivos, a maternidade como opção e não como determinismo biológico e social, a liberdade sexual, a educação dos filhos, as diferentes expressões de preconceito e as formas de dominação em vários aspectos da vida, entre outras.

Além disso, cabe ressaltar que, nessa época, o discurso feminista se centrou nas questões levantadas pelas mulheres ocidentais, brancas e heterossexuais. As mulheres negras e as homossexuais, por exemplo, que também apresentavam outras demandas, ainda não tinham grande representatividade e visibilidade.

Manifestação pela emancipação das mulheres, em Nova York, Estados Unidos. Foto de 1970.

A segregação dos negros nos Estados Unidos

A segregação racial foi instituída em alguns estados dos Estados Unidos em 1876, durando até os anos 1960. Principalmente nos estados sulistas, taxas e testes de alfabetização excluíam os negros do direito ao voto. Nos locais públicos, como escolas, trens e ônibus, havia instalações separadas para negros e brancos. A herança da escravidão legou à maioria dos negros a pobreza, a falta de acesso aos estudos e o sofrimento com a violência policial.

O marco inicial da luta dos negros contra a segregação racial foi a atitude de desobediência civil da costureira Rosa Parks em 1955. Parks desafiou a lei segregacionista que vigorava no Alabama ao se negar a ceder o assento no ônibus a um homem branco. Por isso, foi presa por sua insubordinação, motivando protestos e boicotes ao transporte público.


Rosa Parks desafiou a lei de segregação racial

A atitude de Rosa Parks deu um grande impulso ao movimento negro nos Estados Unidos, que teve entre seus principais líderes o pastor Martin Luther King. Nas décadas de 1950 e 1960, ele promoveu um movimento de desobediência civil no país com a realização de marchas pacíficas e assembleias como estratégia de luta pela conquista dos direitos civis da população negra.

A forte adesão ao movimento levou à aprovação da Lei dos Direitos Civis, em 1964, que proibiu a discriminação e segregação racial em qualquer órgão público, promovendo a integração escolar e proibindo o racismo nas contratações. Em 1965, foi aprovada a Lei de Direito de Voto, que estabeleceu o direito de voto a todos os cidadãos do país, independentemente de escolaridade e renda.

Martin Luther King na Marcha de Washington. Foto de 1963.



Aula 01 - Welfare state, Maio de 1968 na França (Universidade de Nanterre) e Primavera de Praga

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